Luiz Fernando Carvalho lê Raduan Nassar
Adriano Lobão de Aragão
1 LAVOURA ARCAICA, DE RADUAN NASSAR
Publicado em 1975 pela editora de José Olympio, o romance de Raduan Nassar, Lavoura arcaica, de imediato chamou a atenção da crítica. Tristão de Athayde, no Jornal do Brasil de 05 de agosto de 1976, página 11, assim se referiu ao autor até então desconhecido:
Lavoura Trágica (sic), de Raduan Nassar, é obra de um jovem estreante que roça também o fenômeno da miscigenação, em São Paulo, pela imigração sírio-libanesa, embora não toque especialmente neste aspecto do problema […]. Uma novela trágica em que se misturam evocações do Antigo Testamento, como Abraão prestes a sacrificar Isaac, com parábolas do Novo Testamento, como a do Filho Pródigo. Tudo isso, porém, à luz ou à sombra de uma filosofia pagã do destino implacável, numa luta insolúvel entre o mal e o bem, numa atmosfera bem brasileira, mas dominada por um sopro universal da tradição clássica mediterrânea, em que ressoa a dor imemorial das mães. Drama pungente e tenebroso, em estilo incisivo, nunca palavroso ou decorativo, da eterna luta entre a liberdade e a tradição, sob a égide do tempo. Livro impressionante, revelação de um autêntico escritor (ATHAYDE, apud ZILLY, s/d, p. 2).
Em sua hermética linguagem lavrada em longos períodos, Lavoura arcaica desenvolve sua trama aparentemente inspirada na parábola do Filho Pródigo, do Evangelho segundo São Lucas, mas desenvolvida com novos elementos que angustiam o protagonista, como a epilepsia, a paixão incestuosa, o devaneio. Trata-se, principalmente, do discurso de um personagem agonizante, padecido sob as ações rigidamente empreendidas pelo pai e que, em seu discurso rebuscado materializa seu horror.
– Misturo coisas quando falo, não desconheço esses desvios, são as palavras que me empurram, mas estou lúcido, pai, sei onde me contradigo, piso quem sabe em falso, pode até parecer que exorbito, e se há farelo nisso tudo, posso assegurar, pai, que tem também aí muito grão inteiro. Mesmo confundindo, nunca me perco, distingo pro meu uso os fios do que estou dizendo” (NASSAR, 1989, p. 165).
A força verbal que emana do narrador e do protagonista André, o “filho pródigo” a quem o irmão, Pedro, tem a missão de levá-lo de volta para casa, é que imprime à obra sua significação estética, encarnada como reflexo do comportamento e da visão de mundo de seus personagens.
Para essa construção simbólica e linguística das angústias e devaneios de André, o autor mergulha numa linguagem absolutamente estetizada, simbolizando o delírio através do uso de uma criação rebuscada, de sintaxe complexa, calcada em longos períodos subordinados e na pontuação regendo o entrelaçamento de discursos. Um intricado labor racionalizado pelo crivo do apuro estilístico do autor para que fosse possível a representação das angústias e devaneios de seu protagonista. O delírio que, via linguagem, se alça ao Belo, à experiência estética, a poesia entremeada em romance, plena de metáforas e lirismo, como na passagem em que André rememora a infância, e uma analogia metafórica passa a entrelaçar a espreita pelas pombas e a percepção da presença de Ana, sua irmã, por quem nutre intenso e incestuoso desejo.
(…) ela estava lá, não longe da casa, debaixo do telheiro selado que cobria a antiga tábua de lavar, meio escondida pelas ramas da velha primavera, assustadiça no recuo depois de um ousado avanço, olhando ainda com desconfiança pra minha janela, o corpo de campônia, os pés descalços, a roupa em desleixo cheia de graça, branco branco o rosto branco e eu me lembrei das pombas, as pombas da minha infância, me vendo também assim, espreitando atrás da veneziana, como espreitava do canto do paiol quando criança a pomba ressabiada e arisca que media com desconfiança os seus avanços, o bico minucioso e preciso bicando e recuando ponto por ponto, mas avançando sempre no caminho tramado dos grãos de milho, e eu espreitava e aguardava, porque existe o tempo de aguardar e o tempo de ser ágil (…) (NASSAR, 1989, p. 97).
Segundo Nelson Oliver (2005, p. 71) o nome “André” provém do grego andrós (homem), através do francês André, e significa “másculo, varonil”. “Ana” provém do hebraico Hannah e significa “cheia de Graça”. “Curiosamente, ana é também uma raiz sânscrita que se refere às Águas Primordiais da Criação.” (p. 340) As simbologias são muitas e intensamente calcadas na linguagem. Captá-las e transpô-las em linguagem cinematográfica seria o desafio empreendido pelo diretor Luiz Fernando Carvalho, quando se propôs a “ler” Lavoura arcaica sob a óptica de suas câmeras.
2 A IMAGEM LITERÁRIA NO CINEMA DE LUIZ FERNANDO CARVALHO
Como toda criação artística, a realização cinematográfica é uma experiência estética desde a sua gênese. Ainda que voltemos nosso olhar exclusivamente para os pioneiros da cinematografia, cada conquista empreendida pelos primeiros diretores era incorporada à linguagem cinematográfica e ressoava na visão apurada dos críticos e teóricos da época, muitos deles também realizadores do desenvolvimento dessa nova arte, como Serguei Eisenstein. A possibilidade de metáforas visuais, a descoberta da edição, do close, do travelling, a multiplicidade de planos, a interação com a iluminação, a expressividade da música, assim como os demais recursos de linguagem, originaram farto material para a análise estética do Cinema. Para o espectador, a experiência cinematográfica também encontra-se impregnada de elementos estéticos, mesmo que não haja nenhuma preocupação analítica. O diretor Luiz Fernando Carvalho, que realizou a versão cinematográfica de Lavoura arcaica, observa que
Quando você entra numa sala de cinema, você entra para reencontrar a vida, mas, se não houver uma mínima diferença entre a vida que existe contida na tela e a vida que existe do lado de fora da sala de cinema, nas ruas, então não faz mesmo o menor sentido entrar em uma sala de cinema. E essa diferença é a criação, é a linguagem, é a fabulação, o resto é mera descrição sem alma (FILHO, 2002, p. 103).
Luiz Fernando Carvalho é oriundo de novelas e minisséries televisivas, mas sempre foi notória sua contínua aproximação com o texto literário. Trabalhou como auxiliar em O tempo e o vento (minissérie, 1985, Rede Globo) e Grande sertão: veredas (minissérie, 1985, Rede Globo); diretor em Helena (novela, 1987, Rede Manchete), Tieta (novela, 1989-90, Rede Globo), Pedra sobre pedra (novela, 1992, Rede Globo), Renascer (novela, 1993, Rede Globo), O rei do gado (novela, 1996-97, Rede Globo) e Esperança (novela, 2002-03, Rede Globo). Também dirigiu, pela Rede Globo, as minisséries: Os Maias (2001), Hoje é dia de Maria (2005), A pedra do reino (2007), Capitu (2008), Afinal, o que querem as mulheres?(2010). Dentro desse universo televisivo, seu trabalho ganhou notoriedade pela linguagem inovadora para o meio utilizado, sobretudo nas suas produções mais recentes. Entretanto, o mergulho na linguagem alegórica estilizada parece ter sido sedimentado na produção de Lavoura arcaica (2001). Trata-se de uma transposição da linguagem poético-narrativa do livro de Raduan Nassar para a linguagem poético-cinematográfica a partir de um engajamento tão rigoroso que o próprio roteiro do filme é uma apropriação da obra literária em questão. Trechos inteiros partem das páginas de Nassar para a fala dos personagens sem que nenhuma adaptação fosse empregada, como uma simbiose efetuada entre o roteiro pela própria obra de Raduan, como se o roteiro fosse substituído pelo livro.
Uma outra associação significativa para a construção da obra encontra-se na percepção da câmera como o olhar do protagonista André, e trata-se de um olhar voltado para seu interior, o que intensifica o tom intimista configurado na obra. Nas palavras do diretor,
No percurso da montagem acabei por acreditar que, eliminando ao máximo os planos de André, talvez pudesse alcançar este sentido de subjetividade, como se o próprio filme oferecesse o lugar do personagem ao expectador, e, no melhor dos momentos, misturando-os, como quem joga uma pergunta no ar: “Como você estaria se estivesse ali, passando por aquela travessia?”, tentei levar a câmera e a montagem por este caminho. É a linguagem não excedendo uma ação ditatorial na condução da narrativa (FILHO, 2002, p. 37-38).
Entretanto, o caminho que efetivamente revelou-se trilhado à exaustão pela equipe de Luiz Fernando Carvalho foi a busca por uma representatividade o mais calcada na fonte primária em si, a obra de Raduan, onde todos os elementos empregados buscam transpor para a tela sua referência verbal, conforme afirmou Piatti e Silva (2008), ao abordarem o filme em questão: “É por meio da verbalização que as imagens literárias produzem uma fotografia. Desta fotografia se extrai sua ‘visualidade’, elemento que objetivamente não está no livro, mas é gerado por suas imagens literárias” (p. 590).
3 LAVOURA ARCAICA, DE LUIZ FERNANDO CARVALHO
A abordagem cinematográfica de uma obra literária acompanha o cinema ao longo de toda sua história. Os exemplos são inúmeros, em suas múltiplas vertentes, sendo, em alguns casos, uma mesma obra literária abordada com grande subserviência ilustrativa (Memórias póstumas, de André Klotzel, 2001) ou com audaciosa releitura alegórica (Brás Cubas, de Julio Bressane, 1985). A liberdade criadora de Bressane contrasta com a leitura pontual de Klotzel. O caso de Luiz Fernando Carvalho, ao abordar Lavoura arcaica, apresenta um aspecto curioso; se, à primeira vista, o delírio alegórico-visual desenvolvido no filme poderia nos remeter à vertente aqui representada por Bressane, na verdade não se distingue do esforço de Klotzel em buscar a ilustração conveniente da obra original. Em outras palavras, Bressane busca realizar uma criação a partir de uma obra literária, enquanto Klotzel realiza uma leitura pautada na montagem cinematográfica. Luiz Fernando Carvalho conduziu o olhar de suas câmeras com o livro de Raduan Nassar entre as mãos.
A despeito de qualquer crítica, Lavoura arcaica é constituído por uma arregimentação bastante bem cuidada, em termos de iluminação, trilha sonora, enquadramento, não deixando detalhe algum adentrar no enquadramento sem que haja uma necessária referência à construção de seu discurso fílmico. Tecnicamente, estamos diante de uma obra que salta aos olhos pelo esmero de sua linguagem estético-visual. Mas a construção desse intricado labirinto que busca emular a complexa sintaxe de longíssimos períodos da obra de Raduan Nassar revela-se repleta de desafios e armadilhas. Qual seria o saldo dessa experiência?
Em primeiro lugar, o aspecto narrativo objetivo é secundário em relação à construção de elementos simbólicos. O íntimo de André é mais representativo que suas ações exteriores.
Sendo a câmera conduzida pelo fluxo de imagens que provêm do inconsciente de André, sua linguagem é impregnada de significados cujas expressões têm o valor de autênticos símbolos, porquanto expressam conteúdos ainda desconhecidos que são pontes lançadas a uma longínqua margem invisível. O símbolo significa possibilidade e início de um sentido mais amplo e elevado, que está além da nossa capacidade de compreensão naturalizada” (PIATTI, p. 585-586).
A representação simbólica em linguagem cinematográfica é sempre um desafio delicado para o diretor, correndo constantemente o risco de realizar uma obra calcada excessivamente em si mesma, como se o desafio estilístico de representar sua simbologia imagética fosse seu verdadeiro objetivo ao invés das relações humanas ali configuradas.
A narrativa desenvolve-se a partir do fluxo de memória de André, num movimento convulsivo entre passado e presente, impregnada de carência e culpa, culminando numa vivência angustiada e devaneadora. O conturbado mundo de André, como era de se esperar, volta-se constantemente para a infância, sempre pontuando o discurso do protagonista com a linguagem utilizada, seja no livro ou no filme. Azerêdo observa que
Também é marcante, por contraste, a re-encenação das experiências de André criança, quando corria pela fazenda em liberdade e leveza, quando se deliciava com os pés descalços em contato com a terra, quando conseguia aprisionar as pombas, quando vivenciava, em plenitude, os afetos da mãe. A leveza de André-menino é tal, que numa dessas cenas da infância, em que uma panorâmica da fazenda é feita em plongée, é a perspectiva de André flutuando, voando, que norteia a subjetividade da tomada (“e eu menino entrava na igreja feito balão”, p. 27). Estas são imagens impregnadas de uma luminosidade que transcende o nível objetivo, como se a anunciar, num primeiro momento, a pureza e inocência daquelas sensações,e, ao mesmo tempo, sua efemeridade (AZERÊDO, 2008, p. 5).
A câmera simulando a sensação do menino André, rememorada anos depois por ele mesmo, é um exemplo de marca fundamental da leitura de Carvalho: colocar câmera e, por extensão, o espectador, na condição de André. A labiríntica linguagem de Raduan é também o simulacro do estado mental de André. A linguagem delira junto ao personagem. Na criação artística, ordem e unidade se coadunam para simular o caos introspectivo e sua peculiar maneira de traduzir o mundo. Para Valery (2002), “a unidade da natureza só aparece em sistemas de signos fabricados expressamente para tal fim e o universo não passa de uma invenção mais ou menos cômoda” (p. 23).
Essa representação visual de uma obra intimista revela-se como um momento relevante da produção cinematográfica nacional por seu mergulho na caracterização alegórica de um universo literário que pouco se deixa apreender por uma transposição imagética ilustrativa. Ainda que para tanto, Luiz Fernando Carvalho tivesse que aliar a ousadia visual e o delírio narrativo a uma rígida leitura da obra original (trechos inteiros foram transpostos para a fala de personagens e narrador/personagem) e de uma produção técnica laboriosa e racionalizante. Ainda que se possa incutir à Lavoura arcaica a pecha de obra excessivamente cerebral, é conveniente lembrar, através de Valery (2002), que
a razão é uma deusa que pensamos velar, mas que, na verdade, dorme, em alguma gruta de nosso espírito: aparece diante de nós, às vezes, para nos obrigar a calcular as diversas probabilidades das consequências de nossos atos. (p. 27)
Em entrevista concedida à Folha de S. Paulo, para a edição de 24 de setembro de 2001, Raduan Nassar se mostrou bastante satisfeito com o filme de Luiz Fernando Carvalho. Nas palavras do escritor, “o filme se sobrepôs ao livro. Eu fiquei fascinado com o trabalho do Luiz. Então, nem me interessava se pequenas passagens estavam diferentes ou não. E eu achava também que estava muito próximo, de certa forma. Não através de uma linguagem enunciativa, mas através de toda aquela poética, porque eu chamo o filme do Luiz de um “poemão”.
REFERÊNCIAS
AZERÊDO, Genilda. Escritas e imagens do eu: a lírica lavoura de Raduan Nassar e Luiz Fernando Carvalho. XI Congresso Internacional da ABRALIC, Tessituras, interações, convergências. São Paulo: USP, 13 a 17 de julho de 2008.
CARVALHO, Luiz Fernando. Lavoura arcaica. DVD. Europa Filmes. Agosto de 2007.
FILHO, P.M. [Editor] Luiz Fernando Carvalho sobre o filme Lavoura arcaica. Cotia: Ateliê Editorial, 2002.
NASSAR, Raduan. Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
OLIVER, Nelson. Todos os nomes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
PIATTI, Deise Ellen & SILVA, Acir Dias da. O discurso cinematográfico de Lavoura arcaica. 1ª JIED – Jornada Internacional de Estudos do Discurso. 2008.
VALERY, Paul. Discurso sobre a estética. In LIMA, Luiz Costa. Teoria da literatura em suas fontes, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. (pp.15-34)
ZILLY, Berthold. Lavoura arcaica “lavoura poética” lavoura tradutória: historicidade, atualidade e transculturalidade da obra-prima de Raduan Nassar. s/d.
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| Texto escrito em 2011, durante o mestrando em Letras pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI.


