Uma arcaica lavoura da linguagem

Luiz Fernando Carvalho lê Raduan Nassar

Adriano Lobão de Aragão

 

  

1 LAVOURA ARCAICA, DE RADUAN NASSAR

Publicado em 1975 pela editora de José Olympio, o romance de Raduan Nassar, Lavoura arcaica, de imediato chamou a atenção da crítica. Tristão de Athayde, no Jornal do Brasil de 05 de agosto de 1976, página 11, assim se referiu ao autor até então desconhecido:

Lavoura Trágica (sic), de Raduan Nassar, é obra de um jovem estreante que roça também o fenômeno da miscigenação, em São Paulo, pela imigração sírio-libanesa, embora não toque especialmente neste aspecto do problema […]. Uma novela trágica em que se misturam evocações do Antigo Testamento, como Abraão prestes a sacrificar Isaac, com parábolas do Novo Testamento, como a do Filho Pródigo. Tudo isso, porém, à luz ou à sombra de uma filosofia pagã do destino implacável, numa luta insolúvel entre o mal e o bem, numa atmosfera bem brasileira, mas dominada por um sopro universal da tradição clássica mediterrânea, em que ressoa a dor imemorial das mães. Drama pungente e tenebroso, em estilo incisivo, nunca palavroso ou decorativo, da eterna luta entre a liberdade e a tradição, sob a égide do tempo. Livro impressionante, revelação de um autêntico escritor (ATHAYDE, apud ZILLY, s/d, p. 2).

Em sua hermética linguagem lavrada em longos períodos, Lavoura arcaica desenvolve sua trama aparentemente inspirada na parábola do Filho Pródigo, do Evangelho segundo São Lucas, mas desenvolvida com novos elementos que angustiam o protagonista, como a epilepsia, a paixão incestuosa, o devaneio. Trata-se, principalmente, do discurso de um personagem agonizante, padecido sob as ações rigidamente empreendidas pelo pai e que, em seu discurso rebuscado materializa seu horror.

– Misturo coisas quando falo, não desconheço esses desvios, são as palavras que me empurram, mas estou lúcido, pai, sei onde me contradigo, piso quem sabe em falso, pode até parecer que exorbito, e se há farelo nisso tudo, posso assegurar, pai, que tem também aí muito grão inteiro. Mesmo confundindo, nunca me perco, distingo pro meu uso os fios do que estou dizendo” (NASSAR, 1989, p. 165).

A força verbal que emana do narrador e do protagonista André, o “filho pródigo” a quem o irmão, Pedro, tem a missão de levá-lo de volta para casa, é que imprime à obra sua significação estética, encarnada como reflexo do comportamento e da visão de mundo de seus personagens.

Para essa construção simbólica e linguística das angústias e devaneios de André, o autor mergulha numa linguagem absolutamente estetizada, simbolizando o delírio através do uso de uma criação rebuscada, de  sintaxe complexa, calcada em longos períodos subordinados e na pontuação regendo o entrelaçamento de discursos. Um intricado labor racionalizado pelo crivo do apuro estilístico do autor para que fosse possível a representação das angústias e devaneios de seu protagonista. O delírio que, via linguagem, se alça ao Belo, à experiência estética, a poesia entremeada em romance, plena de metáforas e lirismo, como na passagem em que André rememora a infância, e uma analogia metafórica passa a entrelaçar a espreita pelas pombas e a percepção da presença de Ana, sua irmã, por quem nutre intenso e incestuoso desejo.

(…) ela estava lá, não longe da casa, debaixo do telheiro selado que cobria a antiga tábua de lavar, meio escondida pelas ramas da velha primavera, assustadiça no recuo depois de um ousado avanço, olhando ainda com desconfiança pra minha janela, o corpo de campônia, os pés descalços, a roupa em desleixo cheia de graça, branco branco o rosto branco e eu me lembrei das pombas, as pombas da minha infância, me vendo também assim, espreitando atrás da veneziana, como espreitava do canto do paiol quando criança a pomba ressabiada e arisca que media com desconfiança os seus avanços, o bico minucioso e preciso bicando e recuando ponto por ponto, mas avançando sempre no caminho tramado dos grãos de milho, e eu espreitava e aguardava, porque existe o tempo de aguardar e o tempo de ser ágil (…) (NASSAR, 1989, p. 97).

Segundo Nelson Oliver (2005, p. 71) o nome “André” provém do grego andrós (homem), através do francês André, e significa “másculo, varonil”. “Ana” provém do hebraico Hannah e significa “cheia de Graça”. “Curiosamente, ana é também uma raiz sânscrita que se refere às Águas Primordiais da Criação.” (p. 340) As simbologias são muitas e intensamente calcadas na linguagem. Captá-las e transpô-las em linguagem cinematográfica seria o desafio empreendido pelo diretor Luiz Fernando Carvalho, quando se propôs a “ler” Lavoura arcaica sob a óptica de suas câmeras. 

 

2 A IMAGEM LITERÁRIA NO CINEMA DE LUIZ FERNANDO CARVALHO

Como toda criação artística, a realização cinematográfica é uma experiência estética desde a sua gênese. Ainda que voltemos nosso olhar exclusivamente para os pioneiros da cinematografia, cada conquista empreendida pelos primeiros diretores era incorporada à linguagem cinematográfica e ressoava na visão apurada dos críticos e teóricos da época, muitos deles também realizadores do desenvolvimento dessa nova arte, como Serguei Eisenstein. A possibilidade de metáforas visuais, a descoberta da edição, do close, do travelling, a multiplicidade de planos, a interação com a iluminação, a expressividade da música, assim como os demais recursos de linguagem, originaram farto material para a análise estética do Cinema. Para o espectador, a experiência cinematográfica também encontra-se impregnada de elementos estéticos, mesmo que não haja nenhuma preocupação analítica. O diretor Luiz Fernando Carvalho, que realizou a versão cinematográfica de Lavoura arcaica, observa que

Quando você entra numa sala de cinema, você entra para reencontrar a vida, mas, se não houver uma mínima diferença entre a vida que existe contida na tela e a vida que existe do lado de fora da sala de cinema, nas ruas, então não faz mesmo o menor sentido entrar em uma sala de cinema. E essa diferença é a criação, é a linguagem, é a fabulação, o resto é mera descrição sem alma (FILHO, 2002, p. 103).

Luiz Fernando Carvalho é oriundo de novelas e minisséries televisivas, mas sempre foi notória sua contínua aproximação com o texto literário. Trabalhou como auxiliar em O tempo e o vento (minissérie, 1985, Rede Globo) e Grande sertão: veredas (minissérie, 1985, Rede Globo); diretor em Helena (novela, 1987, Rede Manchete), Tieta (novela, 1989-90, Rede Globo), Pedra sobre pedra (novela, 1992, Rede Globo), Renascer (novela, 1993, Rede Globo), O rei do gado (novela, 1996-97, Rede Globo) e Esperança (novela, 2002-03, Rede Globo). Também dirigiu, pela Rede Globo, as minisséries: Os Maias (2001), Hoje é dia de Maria (2005), A pedra do reino (2007), Capitu (2008), Afinal, o que querem as mulheres?(2010). Dentro desse universo televisivo, seu trabalho ganhou notoriedade pela linguagem inovadora para o meio utilizado, sobretudo nas suas produções mais recentes. Entretanto, o mergulho na linguagem alegórica estilizada parece ter sido sedimentado na produção de Lavoura arcaica (2001). Trata-se de uma transposição da linguagem poético-narrativa do livro de Raduan Nassar para a linguagem poético-cinematográfica a partir de um engajamento tão rigoroso que o próprio roteiro do filme é uma apropriação da obra literária em questão. Trechos inteiros partem das páginas de Nassar para a fala dos personagens sem que nenhuma adaptação fosse empregada, como uma simbiose efetuada entre o roteiro pela própria obra de Raduan, como se o roteiro fosse substituído pelo livro.

Uma outra associação significativa para a construção da obra encontra-se na percepção da câmera como o olhar do protagonista André, e trata-se de um olhar voltado para seu interior, o que intensifica o tom intimista configurado na obra. Nas palavras do diretor,

No percurso da montagem acabei por acreditar que, eliminando ao máximo os planos de André, talvez pudesse alcançar este sentido de subjetividade, como se o próprio filme oferecesse o lugar do personagem ao expectador, e, no melhor dos momentos, misturando-os, como quem joga uma pergunta no ar: “Como você estaria se estivesse ali, passando por aquela travessia?”, tentei levar a câmera e a montagem por este caminho. É a linguagem não excedendo uma ação ditatorial na condução da narrativa (FILHO, 2002, p. 37-38). 

Entretanto, o caminho que efetivamente revelou-se trilhado à exaustão pela equipe de Luiz Fernando Carvalho foi a busca por uma representatividade o mais calcada na fonte primária em si, a obra de Raduan, onde todos os elementos empregados buscam transpor para a tela sua referência verbal, conforme afirmou Piatti e Silva (2008), ao abordarem o filme em questão: “É por meio da verbalização que as imagens literárias produzem uma fotografia. Desta fotografia se extrai sua ‘visualidade’, elemento que objetivamente não está no livro, mas é gerado por suas imagens literárias” (p. 590).

 

3 LAVOURA ARCAICA, DE LUIZ FERNANDO CARVALHO

A abordagem cinematográfica de uma obra literária acompanha o cinema ao longo de toda sua história. Os exemplos são inúmeros, em suas múltiplas vertentes, sendo, em alguns casos, uma mesma obra literária abordada com grande subserviência ilustrativa (Memórias póstumas, de André Klotzel, 2001) ou com audaciosa releitura alegórica (Brás Cubas, de Julio Bressane, 1985). A liberdade criadora de Bressane contrasta com a leitura pontual de Klotzel. O caso de Luiz Fernando Carvalho, ao abordar Lavoura arcaica, apresenta um aspecto curioso; se, à primeira vista, o delírio alegórico-visual desenvolvido no filme poderia nos remeter à vertente aqui representada por Bressane, na verdade não se distingue do esforço de Klotzel em buscar a ilustração conveniente da obra original. Em outras palavras, Bressane busca realizar uma criação a partir de uma obra literária, enquanto Klotzel realiza uma leitura pautada na montagem cinematográfica. Luiz Fernando Carvalho conduziu o olhar de suas câmeras com o livro de Raduan Nassar entre as mãos.

A despeito de qualquer crítica, Lavoura arcaica é constituído por uma arregimentação bastante bem cuidada, em termos de iluminação, trilha sonora, enquadramento, não deixando detalhe algum adentrar no enquadramento sem que haja uma necessária referência à construção de seu discurso fílmico. Tecnicamente, estamos diante de uma obra que salta aos olhos pelo esmero de sua linguagem estético-visual. Mas a construção desse intricado labirinto que busca emular a complexa sintaxe de longíssimos períodos da obra de Raduan Nassar revela-se repleta de desafios e armadilhas. Qual seria o saldo dessa experiência?

Em primeiro lugar, o aspecto narrativo objetivo é secundário em relação à construção de elementos simbólicos. O íntimo de André é mais representativo que suas ações exteriores.

Sendo a câmera conduzida pelo fluxo de imagens que provêm do inconsciente de André, sua linguagem é impregnada de significados cujas expressões têm o valor de autênticos símbolos, porquanto expressam conteúdos ainda desconhecidos que são pontes lançadas a uma longínqua margem invisível. O símbolo significa possibilidade e início de um sentido mais amplo e elevado, que está além da nossa capacidade de compreensão naturalizada” (PIATTI, p. 585-586).

A representação simbólica em linguagem cinematográfica é sempre um desafio delicado para o diretor, correndo constantemente o risco de realizar uma obra calcada excessivamente em si mesma, como se o desafio estilístico de representar sua simbologia imagética fosse seu verdadeiro objetivo ao invés das relações humanas ali configuradas.

A narrativa desenvolve-se a partir do fluxo de memória de André, num movimento convulsivo entre passado e presente, impregnada de carência e culpa, culminando numa vivência angustiada e devaneadora. O conturbado mundo de André, como era de se esperar, volta-se constantemente para a infância, sempre pontuando o discurso do protagonista com a linguagem utilizada, seja no livro ou no filme. Azerêdo observa que      

Também é marcante, por contraste, a re-encenação das experiências de André criança, quando corria pela fazenda em liberdade e leveza, quando se deliciava com os pés descalços em contato com a terra, quando conseguia aprisionar as pombas, quando vivenciava, em plenitude, os afetos da mãe. A leveza de André-menino é tal, que numa dessas cenas da infância, em que uma panorâmica da fazenda é feita em plongée, é a perspectiva de André flutuando, voando, que norteia a subjetividade da tomada (“e eu menino entrava na igreja feito balão”, p. 27). Estas são imagens impregnadas de uma luminosidade que transcende o nível objetivo, como se a anunciar, num primeiro momento, a pureza e inocência daquelas sensações,e, ao mesmo tempo, sua efemeridade (AZERÊDO, 2008, p. 5). 

A câmera simulando a sensação do menino André, rememorada anos depois por ele mesmo, é um exemplo de marca fundamental da leitura de Carvalho: colocar câmera e, por extensão, o espectador, na condição de André. A labiríntica linguagem de Raduan é também o simulacro do estado mental de André. A linguagem delira junto ao personagem. Na criação artística, ordem e unidade se coadunam para simular o caos introspectivo e sua peculiar maneira de traduzir o mundo. Para Valery (2002), “a unidade da natureza só aparece em sistemas de signos fabricados expressamente para tal fim e o universo não passa de uma invenção mais ou menos cômoda” (p. 23).

Essa representação visual de uma obra intimista revela-se como um momento relevante da produção cinematográfica nacional por seu mergulho na caracterização alegórica de um universo literário que pouco se deixa apreender por uma transposição imagética ilustrativa. Ainda que para tanto, Luiz Fernando Carvalho tivesse que aliar a ousadia visual e o delírio narrativo a uma rígida leitura da obra original (trechos inteiros foram transpostos para a fala de personagens e narrador/personagem) e de uma produção técnica laboriosa e racionalizante. Ainda que se possa incutir à Lavoura arcaica a pecha de obra excessivamente cerebral, é conveniente lembrar, através de Valery (2002), que

a razão é uma deusa que pensamos velar, mas que, na verdade, dorme, em alguma gruta de nosso espírito: aparece diante de nós, às vezes, para nos obrigar a calcular as diversas probabilidades das consequências de nossos atos. (p. 27)

Em entrevista concedida à Folha de S. Paulo, para a edição de 24 de setembro de 2001, Raduan Nassar se mostrou bastante satisfeito com o filme de Luiz Fernando Carvalho. Nas palavras do escritor, “o filme se sobrepôs ao livro. Eu fiquei fascinado com o trabalho do Luiz. Então, nem me interessava se pequenas passagens estavam diferentes ou não. E eu achava também que estava muito próximo, de certa forma. Não através de uma linguagem enunciativa, mas através de toda aquela poética, porque eu chamo o filme do Luiz de um “poemão”.

 

REFERÊNCIAS

AZERÊDO, Genilda. Escritas e imagens do eu: a lírica lavoura de Raduan Nassar e Luiz Fernando Carvalho. XI Congresso Internacional da ABRALIC, Tessituras, interações, convergências. São Paulo: USP, 13 a 17 de julho de 2008.

CARVALHO, Luiz Fernando. Lavoura arcaica. DVD. Europa Filmes. Agosto de 2007.

FILHO, P.M. [Editor] Luiz Fernando Carvalho sobre o filme Lavoura arcaica. Cotia: Ateliê Editorial, 2002.

NASSAR, Raduan. Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

OLIVER, Nelson. Todos os nomes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

PIATTI, Deise Ellen & SILVA, Acir Dias da. O discurso cinematográfico de Lavoura arcaica. 1ª JIED – Jornada Internacional de Estudos do Discurso. 2008.

VALERY, Paul. Discurso sobre a estética. In LIMA, Luiz Costa. Teoria da literatura em suas fontes, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. (pp.15-34)

ZILLY, Berthold. Lavoura arcaica “lavoura poética” lavoura tradutória: historicidade, atualidade e transculturalidade da obra-prima de Raduan Nassar. s/d.

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| Texto escrito em 2011, durante o mestrando em Letras pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI.

O homem e outros bichos do bestiário de Dobal

BESTIÁRIO
(H. Dobal)

O homem e os outros bichos que passeiam
neste campo de cinza te perseguem.
E após tantos verões sua presença
ainda se guarda em ti como na infância.

E em ti se faz antiga esta lembrança
do descuidado andar nestas veredas
de gado. Mas outra vez nos tabuleiros
de abril teu cavalim de carnaúba
estradando no ar campeia ovelhas.
Vence os campos de outrora e as miunças
soltas do seu passado te restauram

em teu tempo. Teu tempo consequente
neste imenso curral em que te amansas
triste e só campeador de lembranças.

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Talvez os versos de “Bestiário” possam ser apontados como um poema-síntese da primeira parte de O Tempo Consequente, o fundamental livro de estreia do poeta piauiense H. Dobal (1927-2008), editado em 1966. Neles, encontramos mais que os títulos da obra e sua primeira parte, “Campo de cinza” [“Teu tempo consequente, neste campo de cinza”], mas a apresentação de seus principais temas. O interlocutor do poema pode ser entendido como o próprio poeta, funcionando então “Bestiário” como uma espécie de poética para “Campo de Cinza”. Ali se delimita consideravelmente grande parte da temática da referida obra.

É notório que o poeta não tenha escrito “o homem e outros bichos esquecidos”, como se referia ao final do poema imediatamente anterior, “Réquiem”, mas “o homem e outros bichos que passeiam”, pois encontram-se, neste momento, povoando as lembranças de um “menino crescido” que em si restaura um tempo consequente. Um ambiente idílico se reconstrói, justaposto à miséria que os versos iniciais inferem ao, inevitavelmente, evocar o já mencionado poema “Réquiem”. Um menino que campeia nuvens [ovelhas] em um cavalinho de carnaúba. Mesmo quando permeia o onírico, Dobal mantém a inconfundível e admirável rusticidade que retransforma a lembrança-sonho do “menino crescido”, em que se campeia ovelhas pelo céu em um menino que olha para as nuvens, naquele abril, breve intervalo dos verões, dos outubros, onde jaz o homem [e outros bichos], como se o sonho, o céu, [este imenso curral] lhe amansasse, como se ali existissem as “lendas tramadas pelo inverno” a que refere o poema “Campo Maior”. Porém, as nuvens não são mais que lembranças, essas que no Piauí, costumam ser passageiras e poucas águas trazem.

Uma definição para o eu lírico dobalino: triste e só, somente um campeador de lembranças, essas que tresmalharam num campo bem maior que os tabuleiros de carnaubais, o próprio tempo que reduz tudo a cinzas, revelando a existência minguada de um ser esfacelado que busca sobreviver, e nisso não difere de nenhum outro bicho que habita essas chapadas corcoveadas de cupins, onde o capim agreste não dá sustança e o gado magro mal se mantém. Uma simbiose homem-bicho, zoomorfização típica desta primeira parte de O Tempo Consequente, apresenta-se desde o título do poema em questão: “Bestiário”.

A estrutura de “Bestiário” assemelha-se a um soneto recomposto. Um possível segundo quarteto funde-se a um possível primeiro terceto, numa única estrofe de 7 versos. Na poética dobalina, a apropriação muito particular de formas poéticas tradicionais, ganhando em sua obra uma feição própria, é um aspecto observável em diversos poemas, como “Introdução e Rondó sem Capricho”, no qual Dobal utiliza dois padrões de uma forma poética, o rondó português e o rondó francês, reestruturando assim os dois modelos em um só. Se o poeta buscou realizar alguma correlação com a estrutura típica do soneto italiano permanecerá matéria obscura, mas é curioso que “Réquiem”, apresente justamente 14 versos divididos em três estrofes de 4, 7 e 3 versos, predominantemente decassílabos, e que as licenças poéticas sejam encontradas apenas em 3 versos da estrofe que, em teoria, estaria reunindo o segundo quarteto com o primeiro terceto da configuração tradicional de um soneto.

Mas o que seria esse Bestiário de H. Dobal? Remetendo aos mosteiros da idade média, Bestiário é um tipo de literatura descritiva do mundo animal acompanhado de mensagens moralizadoras, reunindo informações sobre animais reais e fantásticos. Entretanto, a significação óbvia seria associar bestiário a besta, animal de carga, de onde teríamos o adjetivo bestial. Porém, a leitura de poesia sempre nos permite alguma fuga. Estilisticamente, é um recurso típico de Dobal a justaposição de termos, como se substituíssem um ao outro ou se fundissem em uma única ideia a ser expressa por elementos que não estariam necessariamente correlacionados, mas quando evocados lado a lado, causam estranhamento, situação tão cara à poesia, tanto sintática quanto semanticamente. Nisso reside boa parte da dicção própria do poeta. Então, poderia um antigo Bestiário monástico transfigurar-se agora no catálogo desses bichos esquecidos, incluindo sobretudo o homem, evocados agora nos verbetes das lembranças campeadas em um imenso curral onde te amansas?

| Publicado originalmente no jornal Diário do Povo, Teresina,  coluna Toda Palavra, em outubro de  2010

Led Zeppelin – Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra

Em entrevista concedida em 1973, Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, declarava que “estava na hora de as pessoas ouvirem outras coisas a nosso respeito, e que não comíamos as mulheres e atirávamos os ossos pelas janelas” (p. 330). Em suas 527 páginas, a biografia Led Zeppelin – Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra (Larousse, 2009, tradução de Elvira Serapicos), escrita por Mick Wall, pretendeu trazer à tona muitas “outras coisas” a respeito da banda; mas em se tratando do Led Zeppelin, seria impossível não permear o extremo hedonismo em que viviam fora dos palcos, a despeito do comentário de Plant. Mas para quem imaginar que o livro de Wall limita-se a uma série de episódios insólitos vividos por uma banda de rock que, nos anos 70, chegou ao limite de fama e dinheiro, é preciso acrescentar que o autor conseguiu ir além, compondo um retrato bastante franco de seus protagonistas, sua contribuição para a história do rock and roll e da cultura de massa do século XX, seu profundo impacto e influência na indústria do entretenimento, e as costumeiras polêmicas de plágio e ocultismo que acompanharam a trajetória da banda do guitarrista Jimmy Page.

As estripulias do Led Zeppelin nas turnês revelam-se as mesmas que diversas outras bandas promoveram, ainda que permeadas pelo exagero que sempre os caracterizou, como o grotesco episódio ocorrido na terceira turnê americana, em 1969, no hotel Edgewater Inn, em Seattle, quando uma groupie mencionou que gostava de ser amarrada e terminou com o nariz comprido de um peixe vermelho introduzido na vagina e a cabeça de um mud shark em seu ânus. O episódio transformou-se na canção “The Mud Shark”, que Frank Zappa lançou em seu álbum ao vivo de 1971, Fillmore East. Como diria o baixista John Paul Jones, “a turnê transforma você em uma pessoa diferente. Percebo isso quando volto para casa. Levo semanas para me recuperar depois de passar tanto tempo vivendo como um animal” (p. 170). É conveniente lembrar que Jones é, incontestavelmente, o mais tranquilo e discreto membro do Led, e no auge da popularidade e hedonismo do Zeppelin, cogitou seriamente a possibilidade de deixar a banda, incomodado com o exagerado ritmo de trabalho e confusões. Curiosamente, parece que o baixista foi o único a escapar da série de tragédias que acompanhou a banda em seus últimos momentos, como se estivessem vivenciando uma maldição, o outro lado de sua meteórica ascensão.

O perfil pessoal da banda já poderia ser visto em seus primeiros dias, quando a jornalista Ellen Sander, da revista Life, acompanhou parte da segunda turnê americana, ainda em 1969 (embora preferisse estar com o The Who, banda bem mais famosa na época, também em turnê nos Estados Unidos naquele mesmo momento).  “Page era ‘etéreo, efeminado, pálido e frágil’. Plant era ‘bonito de uma forma agressivamente obscena’. Bonzo ‘tocava bateria com fúria, quase sempre sem camisa e suado, como um gorila enfurecido’. Jones era o que ‘unia as coisas e ficava nas sombras’”(p. 174). Ao final da turnê, vítima de uma agressão, que poderia ter se transformado em estupro, promovida pelo baterista John ‘Bonzo’ Bonham e alguns roadies, a jornalista foi salva pelo empresário Peter Grant e a matéria para a revista Life jamais seria publicada. Posteriormente, Ellen Sander escreveria sobre o incidente em seu livro, Trips: “Se você entra nas jaulas do zoológico, consegue ver os animais bem de perto, passar a mão no pelo e sentir a energia por trás da mística. Também sente o cheiro de merda bem de perto” (p.175). Era 1969 e, ao longo da década seguinte, com o crescente sucesso e fortuna do Led Zeppelin, os excessos apenas aumentariam. E em relação a Bonzo, acrescente-se que “o baterista parecia ter dois lados: Bonham, o homem de família amoroso, generoso, que detestava estar longe de casa; e Bonzo, o bêbado, maluco e drogado que descarregava suas frustrações em quem estivesse na sua frente no momento. Uma espécie de Jekyll e Hyde, cuja personalidade se dividia mais depressa quando ele bebia” (p. 340).

Entretanto, a relevância, tanto do livro quanto da banda, pode ser compreendida a partir de um depoimento de Mick Wall: “o Zeppelin ajudou a escrever o livro de regras do rock – o que você pode fazer: ser sempre colorido e inventivo, sempre ousando e usando seu talento elevado à máxima potência; e o que você não pode: as drogas não são uma ferramenta criativa, mas são uma força negativa de auto-destruição, por isso não se deve esperar até que seja tarde demais para perceber isso”.

O interesse de Jimmy pelo ocultismo revela-se um ingrediente essencial para a alquimia musical do Led Zeppelin. E nesse ponto, o mergulho em forças ocultas do Led é muito mais orgânico e visceral que o trabalho muitas bandas que vendiam uma imagem abertamente macabra, enquanto Jimmy imergia sua banda em elementos simbólicos da magia e do ocultismo, universos que, ao que parece, encara com ainda mais seriedade que sua própria música. Talvez, para ele, sejam até a mesma coisa; embora, no início dos anos 80, Jimmy estivesse mergulhado em heroína e consumido pela sua própria criação. O fato é que o misticismo do Led Zeppelin nunca foi teatral, mercadológico, mas ritualístico, e isso custou a eles diversas acusações de satanismo, incluindo a famosa controvérsia sobre tocar “Stairway to Heaven” ao contrário. Segundo Robert Plant, “você não encontra nada se tocar a música de trás para a frente. Eu sei, porque tentei. Não há nada lá… É tudo bobagem, essa coisa de demônio, mas, quanto menos você dizia para as pessoas, mais elas especulavam” (p.315). Segundo Page, “existe muita coisa subliminar ali. [Todos os álbuns] foram reunidos, há muita coisa deles – coisas pequenas que você não pega de primeira, às vezes até por muito tempo. Mas, quanto mais você presta atenção, mais você pega. E a ideia era mesmo essa, e isso é bom” (p.313).

O voo do Led Zeppelin também se tornou essencial para diversas transformações nas relações empresariais do showbusiness, empreendidas sobretudo pelo seu obstinado e violento empresário, Peter Grant. Assim como o talento excepcional de Jimmy como músico e produtor, o carisma de Robert Plant, a agressividade de John Bonham e a eficiência discreta e exata de John Paul Jones, a presença de Grant garantiu ao Zeppelin as condições necessárias para que a ideia de Page em continuar um trabalho iniciado com a banda Yardbirds, então em processo de dissolução, pudesse ir muito além dos horizontes almejados.

Segundo Jimmy Page, cada álbum do Led Zeppelin deveria expressar o ponto em que estavam naquele momento. Assim, da urgência do primeiro disco e da ambientação folk de Led Zeppelin III ao depressivo Presence e o inconsistente In Through the out door, o livro de Mick Wall desvenda justamente as circunstâncias que definiram a musicalidade de cada faceta da banda, e torna-se mais interessante se a leitura for acompanhada pela audição dos respectivos discos.

Os plágios, releituras e apropriações indébitas, sua difícil relação com críticos e jornalistas (“Nada do que fazíamos agradava”, desabafa Page. p. 298), polêmicas que sempre acompanharam o Led Zeppelin também foram abordados por Wall, elucidando as fontes, honestas ou não, de diversos trabalhos, e como Jimmy Page recriava qualquer sonoridade que lhe consumisse a atenção, da canção de Jake Holmes, “Dazed and Confused”, indevidamente creditada a Page (e tida como um de seus principais hinos), a “When the Levee Breaks” (que embora fosse creditada originalmente como uma música de autoria do Led Zeppelin, tratava-se de uma releitura de uma antiga canção de ‘Memphis’ Minie e ‘Kansas’ Joe McCoy), com sua monumental bateria, um dos momentos mais grandiosos de John Bohnam, muito mais influente que em seu tradicional solo, “Moby Dick”. Definitivamente, a originalidade do Led não estava em suas composições, mas na intensidade com que as executavam; e justamente por isso, é este o seu principal legado.

| Publicado originalmente no jornal Diário do Povo, Teresina,  coluna Toda Palavra, em maio de  2010

Os óculos de Lennon, o olhar de Paul

Ao que parece, John Lennon considerava os Beatles uma extensão de seu círculo pessoal de relações. Partindo dessa premissa, podemos supor ser este o princípio e o fim da maior banda de rock de todos os tempos. Se em torno de si Lennon reuniu brilhantes talentos como Paul McCartney e George Harrison, também era capaz de impor a presença de seu amigo Stuart Sutcliffe na banda, embora o rapaz não tivesse a menor inclinação musical. Ainda assim, os Beatles foram adiante e arrumaram as malas rumo a Hamburgo, na Alemanha, e, principalmente, rumo ao seu primeiro amadurecimento artístico-musical. Após a saída do pseudo-baixista Stuart e do baterista Pete Best, e o ingresso do irreverente Ringo Starr, o fabuloso quarteto de Liverpool experimentou a explosão de um sucesso internacional jamais imaginado nem experimentado por outro artista. O ano de 1963 foi, definitivamente, o ano da beatlemania. E cinco anos depois, o círculo pessoal de John Lennon exigia a presença constante de Yoko Ono na mesma medida em que se desinteressava visivelmente pela manutenção da parceria criativa com Paul McCartney e, por extensão, com o que sua banda representava a partir de 1968. É claro que a gradativa e inevitável separação dos Beatles não é uma consequência direta da presença de Yoko, mas da postura de John, do desgaste nas relações interpessoais e musicais entre todos, e de equivocadas decisões administrativas que se sucederam depois da morte do empresário Brian Epstein. Mas o impacto que deixaram na música popular e na indústria do entretenimento foi irreversível. E regularmente chegam às livrarias, novas obras que se propõem a mergulhar nesse emaranhado de genialidade, excentricidade, ousadia e o que mais aparecesse. Dessa vez, é Jonathan Gould, autor de Can’t buy me love: os Beatles, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos [tradução: Candombá. São Paulo, Larousse do Brasil, 2009], quem busca estabelecer um interessante painel das referências culturais que permearam a carreira dos Beatles, desde suas origens, em Liverpool, até sua tempestuosa dissolução.

Um dos méritos da obra está em compor um retrato individual de cada beatle sem perder o foco de como a união de suas forças criativas deram origem a tamanho fenômeno de público e de realização artística no universo da música pop. Ouvir cada uma das faixas gravadas pelo grupo, enquanto se efetua a leitura dos pertinentes comentários de Gould, amplia a compreensão de detalhes que quase sempre passam despercebidos, ou que não se costuma dar a devida importância. Talvez por isso, destaco a primorosa dissecação do White Album (The Beatles, 1968), na qual a análise faixa a faixa do mais caótico e disperso (e nem por isso menos fascinante) disco dos Beatles estabelece o potencial quase que exato do quanto eles conseguiriam chegar como força criativa conjunta e suas particulares fragilidades, cada vez mais latentes, puxando-os para a conscientização que há algum tempo já trilhavam caminhos distintos. Os paralelismos que o autor apresenta ao longo da obra enriquecem bastante a leitura. É curioso acompanhar o mergulho de George Harrison na cultura indiana, não apenas na música, e o impacto disso tanto nos Beatles (das notórias faixas Love You To, With You Without You e The Inner Light à desastrosa experiência com o guru Marrarishi), quanto na proliferação da sonoridade indiana na música ocidental e a utilização da cítara indiana por diversos grupos ingleses da época. Mas Harrison tornou-se sobretudo um brilhante compositor de clássicos pop incontestáveis como Here Comes the Sun, Taxman, Whille my Guitar Gently Wheeps e a magistral Something. Mas os Beatles é o resultado primordial da colaboração entre John Lennon e Paul McCartney, e a relação estabelecida entre os dois define cada uma das fases da história do grupo. Analisar essa relação implica em tentar compreender um importante capítulo da história cultural do século XX, e Jonathan Gould realizou um interessante e coeso painel a partir desse caleidoscópio de referências que definiram os anos 60, o comportamento juvenil, a cultura de massa, o mercado fonográfico e a música ocidental a partir de então. Um livro para ler e ouvir.

| Publicado originalmente no jornal Diário do Povo, Teresina,  coluna Toda Palavra, em maio de  2010

Entrevista | “Literatura é compromisso e disciplina”

Entrevista concedida a Mara Vanessa, para a faculdade CEUT, em 2009

Mara Vanessa | Como a literatura entrou na sua vida?

Adriano Lobão Aragão | Difícil saber. Interesso-me por arte desde criança, sobretudo desenho, música, cinema e literatura, mas confesso que tinha um certo distanciamento em relação à poesia. Gostava de algumas coisas, mas não parecia uma atividade que me cativasse muito. Esse afastamento foi se transformado em fascínio quando comecei a descobrir Manuel Bandeira e, algum tempo depois, H. Dobal. Hoje, o estudo da poesia é parte intrínseca à minha maneira de observar o mundo. Quanto aos ficcionistas, posso dizer que a literatura estabeleceu-se em minha vida com as primeiras leituras que fiz de Machado de Assis, no final dos anos 80.

Mara | A literatura é uma arte. Por que ela é considerada como tal?

Adriano | Creio que a literatura, como qualquer arte, consiste numa busca pela expressão estética adequada ao contexto.

Mara | De que forma a literatura pode mudar consciências, provocar reações e operar como agente de transformação social?

Adriano | O mundo organiza-se através da linguagem, e o mergulho em busca de um dos limites desse universo é justamente operado pela literatura e pelas demais manifestações artísticas.

Mara | Alguma recomendação e/ou mensagem para quem quer fazer da literatura uma ferramenta de trabalho e de vida?

Adriano | Que trabalhe sempre e jamais esqueça que ler os autores fundamentais é mais importante que arriscar-se no diletantismo. Literatura, para mim, é compromisso e disciplina, única forma de libertação.

Sonetos

Sonetos. Coletânea de sonetos organizada por Ovídio Poli Junior [Paraty, RJ: Selo Off Flip, 2025].

A língua portuguesa é pródiga em sonetistas. Dedicaram-se ao gênero Camões, Bocage, Antero de Quental, Florbela Espanca, Gregório de Matos, Machado de Assis, Olavo Bilac, Francisca Júlia, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima, Vinícius de Moraes e, mais modernamente, Cecília Meireles, Mario Quintana, Glauco Mattoso e tantos outros.

No rastro dessa tradição, o Selo Off Flip lançou chamada para publicação de uma antologia que reúne sonetos com ampla variedade formal, em estilo tradicional (com métrica e rimas) ou em estilo moderno: versos livres (sem métrica) e brancos (sem rimas).

Esses textos vêm agora a público. Boa leitura!

A UMA ABELHA QUE SE PRENDEU NO ÂMBAR
[Adriano Lobão Aragão]

em beleza, delícia e decoro
pela tarde divaga a breve abelha
desejando a eternidade envolvê-la
quando na seiva arriscasse seu pouso

mas que outra forma no âmbar deixaria
a delicada essência de teu voo
muito além dos limites desse corpo
no pouso impresso na matéria fria

quem sabe o tempo ou o corpo somente
revestido na resina do instante
quem sabe o voo colhido nesse ventre

quando nenhum outro engenho enfim alcance
sem que a morte para este fim se invente
ao colher a beleza que lhe encante

Entrevista | “Vejo minha obra em constante mutação”

Entrevista concedida ao poeta, professor e ensaísta Wanderson Lima, em 2004.

Wanderson Lima | Seu primeiro livro, Uns Poemas (1999), apresenta traços evidentes de influência da estética marginal; seu trabalho mais recente, Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, segundo colocado no Concurso Torquato Neto da Fundac 2003, palmilha outro caminho e, segundo me parece, recebe influxo de autores como H. Dobal e João Cabral de Melo Neto, entre outros. Comente como e por que se deu essa mudança.

Adriano Lobão Aragão | Vejo minha obra em constante mutação. Esse é o único aspecto que me induz a continuar escrevendo: a possibilidade de trilhar outros caminhos, independente de serem avanços ou retrocessos. Uns Poemas foi escrito na sombra da estética marginal, principalmente (ou exclusivamente) dentro do contexto piauiense; e isso fica patente na obra. Há muita coisa que deveria ter sido mais desenvolvida, mas a pressa em publicar atrapalhou um pouco. Já existia a influência de Dobal em meu primeiro livro, mas a informação sobre as influências na transição para o segundo livro está correta. Poderia citar inúmeras outras, mas prefiro deixar esse serviço para os leitores que eu venha a ter. Porém, aceito o fato que foi através dessas influências que minha poesia buscou abandonar os pressupostos estéticos do primeiro livro e mergulhar na intertextualidade e na releitura.

Wanderson | Um dado novo importante de sua nova fase poética é o intenso jogo intertextual que você realiza. A maneira como você monta esses jogos denuncia um débito a T.S. Eliot. Você poderia explicitar melhor esse ponto? Qual o impacto da poética eliotiana em sua nova fase?

Adriano | Vi no Eliot dos Poemas de Ariel e The Wast Land elementos que gostaria de ver associados a contextos piauienses. Essa ânsia me perturbou por muito tempo e gerou alguns poemas bem mais “eliotizados” que preferi excluir. Após esse exercício, a influência já estava estabelecida de maneira que não precisei me preocupar com os resultados. Na primeira parte de Entrega a própria lança…, há trechos de poemas de Eliot reescritos, juntamente com Safo, Horácio, Gregório de Matos e outros. Os exercícios mais radicais estão na parte intitulada A classe operária vai ao paraíso.

Wanderson | Recentemente caracterizei a cultura literária piauiense como autofágica, o que decerto desagradou a algumas pessoas. Se alguém vier aqui para falar de Homero ou Dante terá um público minguado; mas se o tema for, por exemplo, Torquato Neto ou Fontes Ibiapina (sem querer desmerecê-los ou compará-los ao autor grego e ao italiano) o auditório decerto lotará. Você concorda com essa avaliação?

Adriano | Não apenas na literatura, mas em nossa cultura artística em geral, temos esse bairrismo. Aliado a esse aspecto, é necessário lembrar que vivemos numa sociedade onde, com as justas exceções, costuma-se escrever mal e falar demais. E isso não é um “desprivilégio” apenas daqui. Costuma-se tratar mais de autores que de obras e literatura. Aliado a isso, falar de Eliot, Homero, Keats, Safo, é ser chamado de diluidor, pretensioso ou simplesmente ignorado. Mas por outro lado, se a cultura literatura piauiense não tratar dela mesma, quem o fará?

Wanderson | Como professor de ensino médio, não se revolta em ver obras de valor literário questionável serem adotadas em vestibulares enquanto uma autora do porte de Alvina Gameiro é completamente esquecida?

Adriano | Podemos estender também para o ensino médio. Conviver com indicações para lá de absurdas é o mínimo. O desafio de formar leitores é bem mais complicado sob a sombra de um vestibular que reduz o trabalho do professor a treinar seus alunos a marcar cruzinhas em gabaritos, como se a vida nos trouxesse respostas prontas. Espero que essas cruzes não sejam de nosso futuro cemitério intelectual. Quanto a Alvina Gameiro, trata-se de uma das mais injustiçadas escritoras que tenho notícia. Curral de Serras é uma obra que tem muito a oferecer à nossa cultura.

Wanderson | Fale sobre a gênese da revista e site Amálgama. A seu ver, em que Amálgama pode contribuir no contexto literário piauiense?

Adriano | Amálgama nasceu da falta de espaço para divulgação dos primeiros textos que escrevíamos, mais ou menos em 1996. Convidei o poeta Hermes Coelho, o contista Sérgio Batista e os professores Jeferson Probo e Washington Ramos e iniciamos um trabalho que deveria misturar produção e jornalismo literário. Disso resultou um misto de revista e fanzine que é publicado, por enquanto, com periodicidade irregular. Também um site, que nasceu da fundamental colaboração da programadora Glauciene Brito. Nem todos continuam trabalhando conosco atualmente, a periodicidade continua irregular, mas já contamos com vários novos colaboradores, como Rodrigo Petronio, Aquiles Rique Reis, Delmo Montenegro, entre outros. Creio que a contribuição seja a de estabelecer mais um canal de debate e divulgação. De preferência que não seja associado a uma estética, a um grupo ou geração. A intenção é criar um espaço aberto. Porém, a falta de recursos financeiros e tempo hábil nos limita bastante.

Wanderson | Por mero diletantismo, como você mesmo frisa, tem traduzido poemas de autores de língua inglesa, como Emily Dickinson. Que aprendizado tem tirado desse exercício?

Adriano | Isso é sério? Minhas traduções são apenas exercícios sem maiores consequências. Divulgo algumas no site Amálgama apenas para instigar comentários, críticas. Atualmente, trabalho com cummings e Keats. Cada um deles nos traz aprendizagens distintas. No caso de cummings, a organização gráfica influenciando o próprio contexto do poema é fascinante e praticamente intraduzível. O jogo entre a estética e o conteúdo é o que mais me instiga nessa didática.

Adriano Lobão Aragão  nasceu em Teresina e é poeta e professor, autor de Uns Poemas (1999). Idealizador da revista, site e editora Amálgama.

Wanderson Lima é poeta, ensaísta e professor. Escreveu os livros de poemas “Escola de Ícaro” (2000) e “Morfologia da Noite” (2001).

Antologia selvagem

Antologia selvagem. Um bestiário da poesia brasileira contemporânea. Coletânea de poemas organizada por Alexandre Bonafim, Claudio Daniel e Fábio Júlio [Franca, SP: Cavalo Azul, 2025].

A antologia reúne poetas de diversas regiões do país e propõe uma leitura sensível do animal como força imaginativa, signo crítico e campo de afetos. Cada texto convoca uma relação singular entre corpo, linguagem e mundo, fazendo da animalidade um espaço de inquietação e beleza. O livro se torna, assim, território de múltiplas vozes, aberto a experimentações poéticas que partem da natureza, da memória e da vida urbana para reinventar a presença do animal na literatura brasileira atual.

Participaram do livro, dentre muitos outros poetas, Ademir Assunção, Adriana Lisboa , Adriano Espínola, Adriano Lobão Aragão, Alexei Bueno, André Dick, Antonio Carlos Secchin, Beth Brait Alvim, Clarisse Lyra, Claudia Roquette-Pinto, Dora Ferreira da Silva, Elson Fróes, Leila Guenther, Marco Lucchesi, Marcos Siscar, Maria Carpi, Mariana Ianelli, Micheliny Verunschk.

A UMA ABELHA QUE SE PRENDEU NO ÂMBAR
[Adriano Lobão Aragão]

em beleza, delícia e decoro
pela tarde divaga a breve abelha
desejando a eternidade envolvê-la
quando na seiva arriscasse seu pouso

mas que outra forma no âmbar deixaria
a delicada essência de teu voo
muito além dos limites desse corpo
no pouso impresso na matéria fria

quem sabe o tempo ou o corpo somente
revestido na resina do instante
quem sabe o voo colhido nesse ventre

quando nenhum outro engenho enfim alcance
sem que a morte para este fim se invente
ao colher a beleza que lhe encante

Haicai – Do Japão ao Sertão

Haicai – Do Japão ao Sertão. Coletânea de poemas organizada por José De Nicola e Cineas Santos [Teresina: Oficina da Palavra, 2025].

Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Carlos Emílio Faraco, Cineas Santos, Climério Ferreira, Dalila Teles Veras, Demetrios Galvão, Dilson Lages Monteiro, Ernâni Getirana, Francisco Magalhães, Graça Vilhena, J.L. Rocha do Nascimento, José De Nicola, Marina Campelo, Marleide Lins, Menezes y Morais, Paulo Moura, Penélope Martins, Rogério Newton, Roseana Murray, Rubervam Du Nascimento, Suzana Vargas, Tanussi Cardoso, Thiago E e Val Melo

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caminho e morada
natureza em silêncio
perseverança da lesma

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mercado do mafuá
cheiro verde
na banca de tempero

O poema é o bicho

Que tipo de bicho é o poema? Neste livro, doze poetas transformam versos em bichos (e vice-versa). Uns miúdos, outros imensos, todos pulsando vida. Gata, girafa, formiga, lagarta, passarinho, tigre, borboleta… cada criatura se reinventa em palavra. Leia devagar: pode ser que uma joaninha resolva acompanhar a leitura pousando no seu ombro. Se preferir, pode até colorir. [Adriano Lobão Aragão / Thiago E]

uma zoologia poética

A coletânea de poemas, a ser lida a seguir, reúne doze poetas contemporâneos, arregimentados do Piauí, do Maranhão e da cubana Pinar del Rio. A aliança pretende nos dizer da vitalidade, da atenção ao sopro da poesia de nosso tempo. Além disso, “o poema é o bicho” aprofunda a escolha e traz todos os poemas encilhados em mimese zoológica, sumarizando uma espécie de bestiário poético. A mobilidade verbal dos poemas investe na percepção diante dos bichos e seus condicionantes biológicos, suas curiosidades instintivas, além de lhes serem dadas outras atribuições semânticas e imagéticas pelo olhar do(a) poeta, inspecionando assim nosso irresoluto dialético entre natureza e cultura.

Outra concentração aqui encontrada atende à poética da brevidade. A concisão, a celebração da síntese como conduto estrutural do poema, o breve contrapondo-se ao caudal lírico são a fatura resultante. Alguns assumem as lições dos poetas japoneses Bashô e Issa com a essencialidade do haicai, essa tradição que se espalha há tempos pelo poema brasileiro e que já ganhou dicção pindorâmica. E como a língua portuguesa não dispõe de escrita ideogramática para a possibilidade visual do poema, a coletânea recorre ao signo gráfico como representação, cada poema recebe sua nomeação iconográfica. Aos cuidados de Adriano Lobão, os traços também avultam em concisão e seguem a economia de informação, trazendo a figuratividade no contorno e no residual do grafismo em preto e branco.

Esta apresentação seguiu também a sintaxe da brevidade, restando ao leitor e leitora a complementaridade com a recepção a esta fauna poética.

Feliciano Bezerra
Professor de literatura (UESPI),
cantor e compositor

O poema é o bicho. Coletânea de poemas organizada por Marleide Lins e Thiago E, com ilustrações de Adriano Lobão Aragão [Teresina:  AvantGarde, 2025]. Participaram do livro: Adriano Lobão Aragão, Aliã Wamiri Guajajara, Cineas Santos, Demetrios Galvão, Laís Romero, Luiza Cantanhêde, Marian Campelo, Marleide Lins, Nelson Simón, Sergia Alves, Thiago E e Wanderson Lima.

eu percebi
a grandeza da natureza
pela primeira vez
quando vi uma girafa

caminho e morada
natureza em silêncio
perseverança da lesma