Adriano Lobão Aragão
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“Quando forma e conteúdo se tornarem indiscerníveis, uma unidade em que não se é possível mais explicar como as ideias se encarnam formalmente para atuar emocionalmente; é, então, descoberto o processo do discurso interior como lei básica de construção da forma e da composição”.
Serguei Eisenstein
(XAVIER, 1993, p.204)
Quando Alexander Baumgarten realizou os estudos que o levaram a escrever a obra Aesthetica (publicada em 1750), cunhou o neologismo “estética”, que designava, para além do título da obra, a própria matéria em discussão. Em strictu sensu, designaria a teoria ou filosofia da Arte. Também refere-se, em latu sensu, à análise da beleza na Arte e na Natureza, uma teoria ou filosofia do Belo, “entendendo-se por Belo todo o conjunto de sensações experimentadas no contato com a obra de arte ou manifestação da Natureza” (MOISÉS, 2002, p. 201). Entretanto, se coube a Baumgarten a elaboração de tal termo, é preciso lembrar que desde a Antiguidade Clássica a humanidade debruça-se sobre as questões fundamentais da Estética, como nos indicam os escritos de Platão e Aristóteles, dentre outros. Paul Valery, em discurso proferido no Segundo Congresso Internacional de Estética e de Ciência da Arte, ocorrido em agosto de 1937, declarou que
A Estética nasceu de uma observação e de uma fome de filósofo. Tal acontecimento, sem dúvida, não foi de modo algum acidental. Era quase inevitável que o filósofo, em sua empresa de ataque geral das coisas e de transformação sistemática de tudo o que se produz no espírito, caminhando de pergunta em resposta, esforçando-se em assimilar e reduzir a um tipo de expressão coerente, que está em si, a variedade do conhecimento, encontrasse certas questões que não se situam nem entre as da inteligência pura, nem na esfera da sensibilidade apenas, nem tampouco nos domínios da ação comum dos homens, mas que concernem a estes diversos modos, combinando-os tão intimamente que foi preciso considerar estas questões separadamente dos outros objetos de estudo, atribuir-lhes um valor e uma significação irredutíveis e assim dar-lhes um destino, encontrar-lhes uma justificativa diante da razão, um fim bem como uma necessidade, dentro do plano de um bom sistema do mundo (VALERY, 2002, pp. 19-20).
Nesse discurso, Valery desenvolve seu raciocínio discorrendo também sobre a noção de prazer inerente à raiz das preocupações estéticas. “O prazer, enfim, só existe no instante e nada de mais individual, de mais incerto, de mais incomunicável” (VALERY, 2002, p. 23). A questão estética, então, é posta permeando os liames do prazer e da razão, tendo o juízo crítico, e por consequência a razão, um papel difícil de ser apreendido diante do intempestivo engenho do prazer, pois, referindo-se ao Belo, Valery acrescenta que
os juízos a seu respeito não permitem nenhum raciocínio, pois, longe de analisar seu objeto, o que eles fazem é acrescentar-lhe um atributo de indeterminação: dizer que um objeto é belo é conceder-lhe valor de enigma (VALERY, 2002, p. 23).
Ora, para Valery, a proposição de uma “Ciência do Belo”, isto é, a Estética, inevitavelmente desmoronaria por conta da amplitude das diversidades de fenômenos que tenham se admitidos como Beleza ao longo da história da humanidade e, diante de tal experiência, inevitavelmente associada ao prazer, que leva o indivíduo a desfrutar o que estiver ao alcance e da maneira que lhe for possível. É a partir dessa fruição do prazer que “a malícia da sensibilidade é infinita. Ela frustra os conselhos melhor fundados, mesmo que sejam o fruto das observações mais sagazes e dos argumentos mais desprendidos” (VALERY, p. 24). Consequentemente, qualquer expediente da “Ciência do Belo” não se sustentaria em face da própria experiência do Belo. Mas em momento algum a humanidade deixou de buscar a criação estética. Para Borges (2011), a própria linguagem é uma criação estética.
Creio que não resta a menor dúvida quanto a isso, e uma prova é que, quando estudamos um idioma, quando somos obrigados a ver as palavras de perto, sentimos que elas são belas ou não. Ao estudar um idioma, vemos as palavras com lupa, pensamos esta palavra é feia, esta é bonita, esta é pesada. Isso não acontece com a língua materna, em que as palavras não nos parecem isoladas do discurso (BORGES, 2011, p. 164).
Dentre a criação literária, que é o expediente artístico da linguagem verbal, é comum associar à poesia (incluindo a prosa poética e outras manifestações) como o mais alto grau de apuro estético no labor literário. A recorrente referência ao célebre aforismo de Ezra Pound, “Literatura é linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível” (2006, p. 32). Observando a antologia fundamental proposta por Pound na obra em questão, ABC da Literatura, percebe-se, em sua totalidade, a poesia como exemplo desse máximo grau possível. Não há prosadores citados. Na Mini-antologia do paideuma poundiano advém de Homero o primeiro exemplo apresentado como texto fundamental, “de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos” (POUND, 2006, p. 161). Trata-se aqui de um fragmento apresentado como sendo o Canto 11 da Odisseia, mas, segundo nota do tradutor Augusto de Campos (p. 164), seria uma paráfrase da versão latina de Andreas Divus Justinopolitanus (1538), utilizada no início do Canto I dos Cantos, do próprio Pound.
Karl Marx preocupava-se com a razão pela qual a arte da Grécia antiga mantinha um “encanto eterno”, embora as condições sociais que a tinham produzido há muito tivessem desaparecido. Mas como poderemos saber se ela continuará sendo “eternamente” encantadora, já que a história ainda não terminou? (EAGLETON, 2006, p. 18)
Sim, provavelmente a história não terminou. Tampouco terminou a influência dos clássicos gregos e da poesia atribuída a Homero. George Steiner, em Nenhuma Paixão Desperdiçada, alude a um esforço bastante recorrente na literatura inglesa de retomar Homero. O mesmo não deve ser absolutamente alheio às demais literaturas ocidentais:
Impressionam-nos, principalmente, a qualidade e diversidade da extensa linhagem de tradutores e autores que reagiram ao estímulo de Homero. É a complexidade das modulações, é a riqueza de visões que nos leva de Lydgate e Caxton a Ulysses e Omeros. Não foi apenas em Keats que o Homero de Chapman exerceu sua atração desconcertante. O que seria da Ilíada projetada por Dryden se ele tivesse persistido além do Livro I. Não sei que outro poema épico em inglês depois do Paradise Regained de Milton – e como Homero está presente em Milton! – equipara-se em prestígio e maestria de narrativa à Ilíada de Pope. Encontram-se instâncias de inequívocas “domesticidades”, como no caso de uma decoração interior em estilo flamengo na Odisséia de Cowper e do tratamento que ele deu “àquela espécie sublime que deve sua própria existência à simplicidade”. Os Cantos homéricos de Shelley revelam tanto seu virtuosismo poético quanto sua intimidade com os textos líricos gregos (…) (STEINER, 2001. p.98).
Do muito que se produziu (e muito se perdeu) na Grécia antiga, coube ao texto poético, notadamente o texto impregnado de elementos estéticos, a referência maior a uma cultura essencial para a fundação do Ocidente, composto numa língua que provavelmente tenha sido utilizada primordialmente para a poesia e seus mitos. E esse uso específico da linguagem, permeada pela busca da expressão não convencional que transcenda a experiência prosaica em direção a uma redenção estética, atravessou séculos, legou diversas obras fundamentais, da Odisseia de Homero ao Ulisses de James Joyce, a linguagem literária tenta colocar-se além da mera transmissão de informação.
REFERÊNCIAS
BORGES, Jorge Luis. Borges oral & sete noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura, uma introdução. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 11.ed. São Paulo: Cultrix, 2002.
POUND, Ezra. Abc da literatura. 11.ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
STEINER, George. Nenhuma paixão desperdiçada. Rio de Janeiro: Record, 2001.
VALERY, Paul. Discurso sobre a estética. In LIMA, Luiz Costa. Teoria da literatura em suas fontes, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. (pp.15-34)
| Texto escrito em 2011, durante o mestrando em Letras pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI.
