ARAGÃO, Adriano Lobão. Os intrépidos andarilhos e outras margens. Teresina: Nova Aliança, 2012.
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Ainda estávamos nos primeiros dias de chuva quando o rapaz magro e calado reuniu sua fortuna de cacarecos em um saco de pano e seguiu para longe da casa de seus pais. Durante vinte anos, obedeceu cegamente às determinações que a tradição e austeridade daquele povo exigiam, até decidir abandonar a pequena aldeia perdida no tempo, entranhada onde não chegavam nem notícias nem rumores do que ocorria para além daqueles campos. Por dias e noites percorreu estreitas veredas repletas de unhas-de-gato que deixavam cortes e arranhões em suas pernas cobertas somente pelos restos de uma calça-curta. Dispersas as sobras de panos e calçados, restavam pés carcomidos apontando sempre adiante, pois ao caminhante lhe basta o caminho. O cansaço não incomodava o corpo acostumado ao ininterrupto trabalho a que sempre fora submetido. Um menino de poucas palavras, entregue à lida diária, mas ainda em tão rude criatura houve o dia em que os limites de sua aldeia não mais poderiam ser tolerados. Então, sozinho, rumou o pai ao campo, cuidar do rebanho com os mesmos gestos de todos os dias, que estes não mudam, ainda que o filho procurasse agora outros pastos, outros currais onde pudesse amansar seus anseios, ou tresmalhar de vez, longe dos afazeres e ensinamentos que a tradição exigia: observar o momento certo de levar o rebanho a cada pasto, protegê-lo e esperar cada coisa em seu tempo, conforme a própria natureza; esperar o tempo de plantar, esperar que a semente brote, e esperar o amadurecimento necessário para colher e guardar as novas sementes que no futuro seriam plantadas e, quando brotassem, esperaríamos a colheita novamente, cada coisa em seu tempo. Não o que se ensina de pai para filho somente, mas o que nos impõe estes campos que dizem dia após dia o que nos cabe enquanto esperamos a próxima estação para recomeçar o mesmo trabalho agora e sempre. Estes os nossos campos e pastos, pois a vida aqui não é pior nem melhor que nenhuma outra. Esta a nossa vida, plantada suas raízes neste chão duro, onde um vento impetuoso e áspero obriga todos a esperar mais um dia de luta, que amanhã será o mesmo, e a manhã será a mesma. Entretanto, também quis o pai, quando jovem, sair destes campos um dia. Ou muito tempo depois, quando por ali passaram aqueles intrépidos andarilhos, vindos não se sabe de onde. Se pudesse, talvez os seguisse aonde quer que fossem, com suas cores, suas danças e seus truques, breve alegria que se desfez à partida iminente. Também desejou partir outrora, mas sabia desde o primeiro instante que tudo é apenas uma ilusão que, após o desarmar de lonas e tendas, retoma seu inevitável desencanto. Assim a vida, é preciso aceitá-la em seu silêncio, como no pasto o gado amansado pelo tempo apenas aceita o que lhe cabe, o pasto à boca e o horizonte distante, e ao homem já é muito dispor do que comer no intervalo de um dia. Por isso não era possível para aquele pai aprovar o desgarramento do filho, pois se a si pôde arrebanhar seu ímpeto primeiro, a sua estirpe deveria segui-lo passo a passo, conforme ensinam estas reses aqui acuadas. E como sempre há uma que tresmalha, impulsiva e imprudente, e que retorna breve ou tarde algumas vezes ou nunca mais em outras, e sempre permanecem diversas mais reses para a lida, não há o que lamentar a folha que cai, assim como não lamentaria a ausência do filho, o seu retorno ou o seu cair. Isto ensinam estas reses aqui paradas no pasto em que ruminam a aceitação dos dias. Estes os pensamentos, a única herança que solitariamente lhe oferece no breve instante em que o vaqueiro observava o gado a beber, como água parada na memória. Mas não chegou a ter certeza se conseguiu esboçar leve sorriso antes de voltar à faina, pois o tempo não pranteia a distância que o alimenta, e sempre há trabalho a seguir enquanto a breve lembrança se dispersa em seu aboio, não importando se a muitas léguas dali o filho matava a sede somente com a água das chuvas que iniciavam a nova e breve estação ou se o rapaz desconhecia por quanto tempo permaneceria vagando, tendo por guia somente os instintos, ou que deitasse no mato molhado, com a boca aberta para a água do céu, olhos fechados, e o anseio de um caminho mais breve e seguro que pudesse poupar-lhe tamanho sacrifício. E saciado o gado, retorna o pai e seu rebanho ao curral. Era tempo.
