Opiniães – Revista dos alunos de literatura brasileira

A edição número 25 de Opiniães – Revista dos alunos de literatura brasileira, publicada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo encontra-se dispoível em: http://www.revistas.usp.br/opiniaes/article/view/233931

Na seção Nordeste caleidoscópio: entre manguezal, doce-caju, conchas do mar, temos os poemas Assar castanha; Sombra de bois; Labirinto este círculo infinito; Os nomes as pedras (páginas 270 a 274)

ASSAR CASTANHA

1
requer engenho a arte de assar castanha
exige cuidado ao examiná-las
e estar atento ao deixá-las ao sol
se alguma castanha verde engana

o mesmo olhar que agora procura
uma lata de leite em pó vazia
e depois abri-la e furá-la a faca
tornar plana toda sua curvatura

encontrar três pedaços de tijolo
para apoiar a lata deslatada
e usar graveto e papel feito lenha
para só então receber o fogo

encontrar ainda um cabo de madeira
para mexer e virar as castanhas
além de derrubá-las ao final
e apagar fogo e castanha na areia

2
abrir as castanhas com pedra ou tijolo
e constatar entre os dedos sujos
o quanto eram poucas

e compensar a falta com farinha
e pilar tudo num pilão imundo
onde cada um receberá seu punhado

adoçar com cuidado e sem cuspir
resquícios de carvão tijolo e areia
pois leva arte o engenho de assar castanha

Noite de dezembro

Adriano Lobão Aragão

as cinco almas desta família
reunidas no silêncio da noite
celebram sua incômoda comunhão
no rascunho de sorrisos frios
repetidos nos gestos de comer e beber

no entanto é noite de dezembro
o avô morto há duas décadas
permanece jantando na mesa vazia
indiferente aos olhares das crianças

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publicado originalmente na revista Germina

Revista Brasileira

NÃO DEIXAMOS NOSSAS PEGADAS
Adriano Lobão Aragão

não deixamos nossas pegadas
no calçamento desta rua
repleta de pedras pontiagudas

deixamos o sangue de nossos pés
cortados no jogo de bola
onde o único ofício das chinelas
era servir de trave para o gol
contado em pés descalços

então a rua deixava em nós suas pegadas
demarcadas pela tintura do mercúrio-cromo
ou pela dor do mertiolate e da água oxigenada

também a bola recebia seus remendos
quando furada cortada ou rasgada
e outra bola mais antiga cedia um recorte
que seria colado com faca quente

não deixamos nossas pegadas
no calçamento desta rua
deixamos o sangue e outras feridas ao relento
esperando o tempo decidir esquecer ou emendar

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Revista Brasileira
Fase VIII, Ano VI, Nº 91
Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2017.
Editor: Marco Lucchesi | ISSN 0103707-2
| poemas: Peito de Moça, p.232; Inhuma, p.232; Quixadá, p.233; Uruçuí, p.233; Cocal, p.233; Fortim, p.234; Ainda havia carambolos nos muros, p.235;  O muro além do jardim demarcava, p.236; Não deixamos nossas pegadas, p.237; Assar castanha, p.238. | Download da edição completa