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Palavra e silêncio: a "luta vã" no Piauí
[por William Roberto Cereja]
publicado no blog portuguescereja.editorasaraiva.com.br, São Paulo, 03 de setembro de 2014


Já conhecia a prosa criativa, inusitada e dialógica de Os intrépitos andarilhos e outras margens, do jovem professor e escritor piauiense Adriano Lobão Aragão. Contudo, surpreendi-me com seu novo livro de poemas As cinzas as palavras (Editora dEsEnrEdoS).

Nesse livro, Aragão adota uma dicção entre clássica e moderna,  fazendo uso de uma linguagem enxuta e despojada. A quase totalidade de seus poemas situa-se no coração daquilo que se vem chamando de modernidade (no sentido da tradição baudelaireana ou valeryana): a metalinguagem, a poesia emparedada entre o silêncio e a palavra. O silêncio é o não canto, já cantado por Drummond e outros poetas modernos. E a palavra, muitas vezes, sem poder cantar o tempo presente, canta a própria palavra ou o próprio canto poético, especialmente neste caso, aquele ancorado na tradição luso-brasileira.

O dialogismo, tão fortemente presente em Os intrépitos, também se faz presente em As cinzas. No diálogo com Camões, temos, por exemplo, a referência a um tempo heroico passado, que já não se pode cantar, como já se via na fase lírica final de Camões:

           este verbo disperso em distante campo de poeira
           Areia estéril onde não canta tágide nem musa
           estância onde não se encontra em seus cantos engenho e arte
                                                                            (“As odes os signos”, p. 15.)
 
Também as reflexões em torno da passagem do tempo e das mudanças do próprio eu lírico deram origem ao poema “então”, quase uma paródia do poema camoniano “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”:
 
         em perene forma permanece em idade e fortuna
         tudo que no tempo não muda nem tempo nem vontades
         nem mentira nem verdade penetra a forma profunda
 
         [...]
 
         somente em mim depositou-se irrelevante reverso
         de não mais crer nos versos dessa inútil lira agridoce.
                                                                     (“então”, p. 19.)

Drummond está explicitamente evocado em “não cantaremos o amor”. Embora o tempo não seja de guerra, diz o poeta:


         Ainda que nos fosse permitido
         não cantaríamos o amor
 
         [...]
 
         e ainda que em nossos túmulos
         habitem novamente flores amarelas e medrosas
         não cantaremos este amor
         que resultou inútil
                                                               (“não cantaremos o amor”, p. 59.)

Assim, cantar o impossível canto é a única opção para o poeta, que, perplexo diante de seu tempo e das armadilhas da linguagem, mais uma vez prefere a palavra ao silêncio.
 


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O itinerário de fábulas inconclusas: "Os intrépidos andarilhos e outras margens", de Adriano Lobão Aragão
[por Alfredo Monte]
publicado originalmente no blog Monte de Leituras, São Vicente, SP, 05 de junho de 2014

 
I
Se eu começar este comentário citando o seguinte trecho de Os intrépidos andarilhos e outras margens [1], “… seria então possível desvendar sua origem, o ponto do qual deságua toda a narrativa, que não é mais que o interminável poema de uma mesma fabulação? Recompor o grande, imenso poema que registra o itinerário de tudo, ou pelo menos o breve fragmento que preserva os intrépidos andarilhos, motivo de sua jornada por campos tão longe de casa?”, o meu leitor mais experiente e safo poderá abanar a cabeça e dizer com seus botões, ai meu Deus!, mais outra narrativa de metalinguagem, de fabulação narrativa voltada para a própria práxis da fabulação narrativa (e suas conexões intertextuais) como tema, ai, não aguento mais!

E se eu acrescentasse outra citação, “…com os mais diversos exemplos de histórias e temas, como um entrelaçar de dias e noites que não revelava seu fim. Mas agora tinha diante de si o enredar de fios que talvez tecesse o paradeiro do objeto de sua busca (…) à espera de quem chegasse para ouvir de-que-se-trata em cada livreto, e seguia um a um desvendando se estaria ali enredada a história que procurava, se entre todos aqueles breves e inúmeros volumes encontraria os andarilhos…”, talvez venha à mesma cabeça abanada desse leitor aquele trecho paradigmático do conto de abertura (“Os desastres de Sofia”) de uma coletânea que em 2014 chega, vejam só, aos 50 anos (A legião estrangeira): “Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias…”; Clarice Lispector, há meio-século, parecia já esgotar o assunto.

Mas não esgotou. E o lindo romance de Adriano Lobão Aragão está aí para desafiar os arautos e augúrios do esgotamento. [ler o texto completo]



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Adriano Lobão: a poética da renovação

[por Francisco Miguel de Moura]
publicado no jornal Meio-Norte, Teresina, 04 de novembro de 2011


 

Adriano Lobão Aragão, jovem de ar tímido e ensimesmado, é um poeta talentoso e dele muito se espera. Certamente, dele muito se ouvirá falar na literatura. No momento, refiro-me ao livro recente, As Cinzas as Palavras, Edições Amálgama, Teresina, 2009, onde prossegue na sua linha de aprofundamento nos clássicos - antigos e modernos – e o faz com uma poética crítica e com sabor de atualidade. Conta com outra roupagem, aquilo de que a poesia da modernidade mais gosta: a intertextualidade e a intratextualidade, traduzindo seu mundo em poesia, com discursos e sensações perpassados por outros.

Cabe aqui uma digressão: Após o advento da obra póstuma Cours de Linguistique Generale, de Ferdinad de Saussurre (1857-1913), resultante de cursos dados aos seus alunos A. Ridlinger, Charles Bally e Albert Sechehaye, a Lingüística torna-se o estudo científico da linguagem, quando é feita a separação entre língua e fala, sendo esta o ato individual e, portanto, sujeito a fatores externos, e aquela, um sistema de valores que se opõem uns aos outros e que está depositado como produto social na mente de cada falante de uma comunidade, com homogeneidade. Mas Lingüística e Gramática não brigam, convivem no mesmo escritor, com sabedoria como faz Adriano Lobão.

O estabelecimento da Lingüística é o começo da modernidade poética, os poetas de então ganham novas formas de libertação, não mais sendo obrigados a simplesmente repetir metáforas e metonímias. O uso de tudo o que a literatura imprimiu até então enriqueceu o consciente e o inconsciente coletivos, para as variações mais estranhas, às vezes chegando ao obscurecimento do discurso. Derivadas da ciência lingüística surgem a intertextualidade e a intratextualidade, ambas já usadas nos discursos clássicos, porém de forma disfarçada.

Na poética de Adriano Lobão não faltam intertextualidades e intratextualidades. A leitura do poema Uns versos (pg.15), tornam suficientemente claras minhas afirmações: “entre linha limpa descanso sutil não se desdobra / claro enigma em superfície inerte paz abandonada / o inexato revelar de obscuras possibilidades” (e segue em todo o poema). Isto já era comum, no Brasil, a partir da Geração de 45, de onde vem H. Dobal. Mas, nas suas últimas obras, Dobal parte para uma temática e um texto mais natural, aproximado da terra e do pensamento contemporâneo de satisfação imediata. O poema Há ainda este tempo, que começa o livro de Adriano Lobão, é muito característico do discurso da citada geração e da geração do Caetano e Torquato Neto, por exemplo.

Encontramos, assim, as causas da proximidade do signo do historicismo, com outro, o da modernidade, através de seu discurso interpolado e enfático nas metáforas com metonímias, nas sinestesias com cenestesias.  Tudo isto já existia na poética barroca, como vemos no poema As odes os signos, de Adriano Lobão, o que não havia era a sociedade moderna, agora entrelaçando toda a literatura:  “estas odes que aqui se erguem como estranhos obeliscos / emanam como desencanto louvando o próprio canto / palavra perdida lançada em busca de alheio signo// este verbo disperso em distante campo de poeira / areia estéril onde não canta tágide nem musa / estância onde não se encontra em seus cantos engenho e arte // nem alegre lembrança vestida de esquecidas ânsias / nem rústico altar profano onde sem música se dança // aquém dos verbos de outrora além dos versos de amanhã // decantados em prosa elegia e hino assim recordam / estas odes aqui erguidas em busca de signo alheio”.

A pequena diversidade na matéria/conteúdo dos seus livros vai por conta de um estilo maturado na substância história principalmente.  Poemas bem construídos, com cheiro e sabor dos clássicos, baseados em altas leituras. O autor é professor de literatura, adivinha-se: - basta que analisemos o mundo de antíteses e paráfrases, referências e alusões, sem falar na tônica inversões/invenções... Por tudo isto e por muito que não é possível ser dito aqui, Adriano Lobão Aragão é um dos melhores poetas da geração Amálgama, deste século XXI, um milenista, como diria Herculano Moraes.




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Yone de Safo

[por Wanderson Lima]
prefácio do livro Yone de Safo, 2007


 

Adriano Lobão Aragão é um dos mais promissores poetas da nova safra de escritores piauienses. Ele tem algo, a meu ver, fundamental para um escritor que leva seu ofício a sério: um projeto literário definido. Lobão sabe que escrever é produzir – e produzir pressupõe, no bom sentido, sujar as mãos, testar, imitar para aprender. A literatura não surge ex nihilo e poetar não é um simples exercício demiúrgico; um poeta – como tem enfatizado Harold Bloom – só o é porque lê outros poetas e procura respondê-los com outros poemas. Isto Lobão sabe bem, como evidencia suas produções; seus poemas não são irrupções de uma alma inspirada – são, sim, exercícios emulativos, paráfrases e colagens de outros poemas.


Creio que, se quisermos perquirir o projeto literário de Adriano Lobão, encontraremos três notas dominantes: a pesquisa prévia do material, o intenso diálogo intertextual e o entrelaçamento entre poesia e narrativa ( – a poesia narrativa de Lobão bordeja, nostalgicamente, o epos). Estes três aspectos podem ser entretecidos em um conceito: o historicismo. O termo, oriundo da arquitetura, foi usado por Fredric Jameson em suas reflexões sobre a produção artística dita pós-moderna e designa mais ou menos a livre fusão e citação de estilos sem uma intenção ulterior, seja ela satírica, cômica ou laudatória. O historicismo é, em suma, a reivindicação de um novo ecletismo, que rechaça a idéia de homogeneidade estilística, predicando a impossibilidade desta numa sociedade em que não há mais uma norma hegemônica. A forma de manifestação do historicismo chama-se pastiche, espécie de imitação pela imitação (conforme expressão de Sérgio Paulo Rouanet), já que despida de intenções críticas. O pastiche, na perspectiva de Jameson, é a réplica pós-moderna da paródia modernista.


A minha hipótese é que Adriano Lobão, leitor eclético, neste Yone de Safo e no livro anterior, Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, é um “flâneur” da cidade dos versos. Com inegável tato poético e bom gosto na escolha de interlocutores, Lobão vai agregando fragmentos e estilos: H. Dobal, Gerardo Mello Mourão, o Homero da tradução de Carlos Alberto Nunes, alguns líricos lusos, a Bíblia, Cabral de Melo Neto. Os textos que Adriano faz dialogar em seus mosaicos poéticos às vezes criam dissonâncias tais que podem parecer jogos gratuitos. Depois de algumas leituras, porém, percebemos que esse “defeito” é algo pensado pelo autor. Lobão, no fundo, é um esteticista; seus signos remetem, de imediato, a signos (diria Bloom: seus poemas respondem a outros poemas) e seu fim não é engendrar um discurso “realista” ou crítico pela poesia, embora às vezes ele o tente¬ – como atesta a queda de tom em que seu penúltimo livro, Entrega a Própria Lança na rude Batalha em que Morra, se lança nas seções “A Classe Operária Vai ao Paraíso” e “Os Passageiros das Águas”.


As citações e as alusões presentes na poesia de Adriano Lobão não estão ali, em primeira instância, para denunciar ou propor reformas. Quando Lobão recolhe os fragmentos de versos e estilos para “montar” o poema ele o faz não à maneira da montagem do velho Einsenstein mas ao modo da montagem de Quentin Tarantino, acreditando que a arte, em primeira instância, se alimenta de arte. Isso quer dizer, então, que a arte de Lobão é alienada? Como resposta, deixo “O Engenheiro Inglês”:


as obras de ampliação do metrô de Teresina

desfazem em cálculos outros números


sob o rio grande outrora dos Tapuias

sob o risco da ignorância

repetem-se eternas alegorias

onde não há inglês pra ver


somente o silêncio certo dos urubus

esperando novas carcaças

de metal e concreto


Qual a motivação desse poema? Se minha hipótese é certa e, de fato, a poesia de Lobão se constrói sob o signo do historicismo, esse texto é, em primeira instância, um perfeito pastiche do estilo de H. Dobal. Só em segunda instância ele é uma crítica. A referencialidade é sempre evidente, mas o modus operandi de Lobão se alicerça no diálogo intrapoético (um afoito formalista diria que essa minha afirmação vale para qualquer poeta, o que absolutamente não concordo). Adriano Lobão, portanto, não é alienado mas tampouco, felizmente, é um ideólogo; é, simplesmente, um artista.


O salto qualitativo de Adriano entre Uns Poemas e Entrega a Própria Lança foi abismal. O leitor perceberá que Yone de Safo também representa um crescimento, embora, dado o curto lapso temporal entre o segundo e o terceiro livro, esse crescimento seja mais discreto. Das cinco seções em que o livro se organiza, fico com “A Coluna de São Simeão” e lamento que a bela “Nordestes” seja tão curta; o título do livro, porém, enfatiza a primeira seção, de poemas de teor erótico, onde realmente há peças bem acabadas. A quinta e última seção do livro, “A Árvore de Ossos”, aponta, talvez, para uma nova dimensão da poesia de Adriano, menos fragmentada e alusiva, centrada na memória individual e não no historicismo, por conseguinte um tanto fora da descrição que fizemos. Bergson desponta na floresta de signos de Lobão.


Teresina, 29 de agosto de 2006.


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