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Os intrépidos andarilhos e outras margens
[por Dílson Lages Monteiro]

publicado
no portal Entretextos em 17 de dezembro de 2012 - http://www.portalentretextos.com.br/entrevistas/os-intrepidos-andarilhos-e-outras-margens,165.html


Autor de diversos livros de poemas, entre eles, Ave Eva, o último editado, Adriano Lobão Aragão, piauiense e um dos editores da revista dEsEnrEdoS, estreia na prosa de ficção com o romance Os intrépidos andarilhos e outras margens, publicado pela Nova Aliança Editora (2012). Entretextos foi ouvi-lo, a fim de descobrir o que move o novo projeto literário de Aragão.



Dílson Lages - Adriano, o livro de início pode causar aos leitores mais desavisados algum estranhamento, porque, no meu entender, há o objetivo de romper as fronteiras entre prosa e poesia. É nítido um projeto de renovação estilística. Qual exatamente a proposta de Os intrépidos andarilhos e outras margens?

Adriano Lobão Aragão -  De início, houve apenas a necessidade de escrever um romance. A preocupação estilística foi surgindo ao longo desse processo. Fiz diversas versões e escolhi a que me pareceu mais conveniente ao tema e ao propósito de escrever de uma maneira na qual a construção estética ficasse em evidência como parte intrínseca do enredo. De qualquer forma, espero ter dado alguns passos nesse sentido.

Dílson - Por que você optou pelo título da obra no plural? O que isso semanticamente significa?

Adriano - Pensei em diversos títulos. Nunca cheguei a um que me agradasse completamente. Mantive “Os intrépidos andarilhos” por ser o objeto de busca, pelo menos num plano inicial, do protagonista. “E outras margens” talvez fosse mais apropriado para um livro de contos, mas optei por manter pois remete às diversas possibilidades de leitura e vivências do personagem. O plural talvez seja uma fuga da individualização do protagonista, talvez. Como saber? Com certeza, Os intrépidos andarilhos e outras margens não é um livro de certezas.

Dílson - Por quais caminhos e margens andam os andarilhos de sua obra?

Adriano - Intertextualidade, metafísica, pretensão, equívoco, agonia... qualquer palavra que dê margem ao caminho.

Dílson -  ponto de vista formal, como você define Os intrépidos andarilhos e outras margens? Aproveito para pedir que você comente o que há de novo e o que há de tradicional em seu estilo.

Adriano - Não sei bem o que há de novo. Na literatura, e na arte em geral, tudo que se faz sempre remete ao que já foi feito. Não vejo como almejar algo essencialmente “novo”. E de tradicional, creio que o livro é em si uma narrativa como qualquer outra, apenas com um esforço estilístico e metalinguístico mais intenso que o convencional.

Dílson - Pude perceber em Os intrépidos andarilhos e outras margens diálogo com Saramago, Guimarães Rosa e João Cabral. Você me dizia informalmente que a obra conversa com o barroco. O que influenciou o estilo de escritura deste livro?

Adriano - Como o livro foi escrito e reescrito durante um longo período, mais de cinco anos, com diversas interrupções e retorno ao ponto de partida, diversas influências foram se sobrepondo. Talvez a linguagem um tanto hermética e rebuscada, em vários momentos, e uma preocupação metafísica eu tenha herdado de minha afeição pela linguagem barroca. 

Dílson - Diante da proposta da obra, você acredita que o leitor lerá o livro buscando mais uma trama ou se concentrará no psicológico do narrador personagem?

Adriano - Espero que existam leitores para as duas coisas. Que uns mergulhem na trama, outros degustem a linguagem, alguns se preocupem com as intertextualidades, enfim. Para mim, o ideal é que o livro encontre leitores por motivos distintos. De preferência, os mais distintos possíveis.

Dílson - O que de vivência de mundo no sentido mais restrito, de uma maneira geral, converteu-se no enredo deste livro?

Adriano - Muito do que vivemos, sentimos, imaginamos e observamos vai parar nas páginas dos livros, mas essa transposição não é fundamental para leitura nem para a análise da obra. às vezes, até o para o próprio escritor, é difícil entender ou apontar essas correlações.

Dílson - O que mais exerceu influência sobre você na construção desta obra?

Adriano - Demorei muito tempo escrevendo, então as influências foram diversas, em momentos distintos. Não saberia indicar a que mais se destacou. 

Dílson - Muitos leitores leem obras literárias buscando uma estória. Quando se deparam com o livro que dialoga com a filosofia e com dimensão metalinguística – como é o seu – veem-se forçados a ler diferente ou a leitura da obra literária, incluindo aqui Os intrépidos andarilhos e outras margens, é exatamente a mesma?

Adriano - Também tenho essa dúvida.

Dílson - Você mergulha em valores e tipos humanos comuns a pequenas comunidades e, nesse sentido, fundem-se o regional e o universal. O que você tem a dizer sobre esses valores e esses tipos humanos?

Adriano - Creio que foram essenciais para a construção da obra. Não vi motivos para isolar um elemento em relação a outro. “Universal” e “regional” são conceitos que me pareceram muito estranhos durante a feitura do livro, por isso abandonei qualquer preocupação nesse sentido.

Dílson - Adriano, para você o escritor escreve aquilo que gostaria de ler?

Adriano - Acho que chega a acontecer isso sim, mas na maioria das vezes me parece uma espécie de diálogo com que já foi lido ao longo da vida. Uma forma de tentar, ainda que pretensamente, participar de um diálogo mais amplo que envolve séculos de produção literária e artística. O mais provável é que seja mera pretensão mesmo, mas talvez seja isso o que move diversos escritores.

Dílson - Como você espera que os leitores se debrucem sobre Os intrépidos andarilhos e outras margens?

Adriano - Espero que terminem a leitura com a cabeça repleta de dúvidas e com um forte desejo de repetir a leitura mais algumas vezes.

[16/12/2012]


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Professor do Diocesano realiza palestra no Salipi

[por Colégio São Francisco de Sales - Diocesano]
publicado
no site do Colégio Diocesano em 14 de junho de 2012 - http://www.diocesano.g12.br/novo/index.php/professor-do-diocesano-realiza-palestra-no-salipi


A palestra “Literatura – Leitura, escrita, ensaio” acontece dia 16.06 (sábado) às 8 horas, no Teatro 4 de Setembro, dentro do Circo de Palestras Língua Viva, no 10º Salão do Livro do Piauí – SALIPI.

Adriano Lobão Aragão é formado em Letras, mestrando em Língua Portuguesa pela Uespi, fundador da revista amálgama, publicação dedicada à Literarura e premiado autor dos livros Uns Poemas, Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, Yone de Safo, As cinzas as palavras e Ave eva. Atualmente, edita o site dEsEnrEdoS, o blog Ágora da Taba e leciona Língua Portuguesa no Colégio Diocesano.

Diocesano – Você fará uma palestra no Salipi que tem como tema O Fim do Mundo é Não Ler. Como aconteceu para você o interesse pela leitura?

Prof. Adriano – Creio que surgiu com o convívio com determinados livros. As minhas companhias mais constantes na infância foram os livros que pertenciam, eu acho, à minha avó e que traziam vários poemas, alguns dos quais minha mãe declamava. Isso me dava alguma curiosidade e como não tenho irmãos, então minhas companhias eram esses livros. Aos poucos acabei me envolvendo e formando um gosto mais apurado ao longo dos anos.

Diocesano – Sua mãe recitava os poemas. O seu encantamento foi mais pelas palavras ou pela melodia dos poemas?

Prof. Adriano – Pela melodia, pelo ritmo. O que me interessava era, sobretudo, o ritmo. Ela tinha preferência por poemas românticos, Gonçalves Dias, e simbolismo.

Diocesano – Você citou certa vez, seu interesse por revistas em quadrinhos e sua preferência pelo Horácio, personagem de Maurício de Sousa. O que ficou dele em você?

Prof. Adriano – A postura reflexiva.  Ele é uma personagem ensimesmada e eu achava interessante porque era personagem de uma revista infantil, para um público infantil e eu achava ele extremamente deslocado do meio no qual ele era publicado. Aquela possibilidade de existir esse personagem tão reflexivo num mundo tão dinâmico quanto aquele chamava muito a minha atenção.

Diocesano – O que veio primeiro, a Literatura ou o Cinema?

Prof. Adriano – Para querer mesmo me aprofundar, foi o cinema. A poesia ficou um pouco de lado quando na adolescência virei um cinéfilo voraz, o cinema teve um impacto muito grande.

Diocesano – Lendo seus comentários sobre Literatura, Cinema, Fotografia, percebemos que você trabalha muito com símbolo, com semiótica. Desde quando tudo interessa tanto?

Prof. Adriano - Pois é. Eu diria que a maioria das artes me interessa bastante, não sei precisar desde quando, não me vem uma data, uma época. Mas eu tento ver a poesia no cinema, a literatura na fotografia, a música da poesia. Eu gosto muito de usar essas intersecções, sobretudo a estética.

Diocesano – Na sua opinião, o que acaba determinando o estilo de um escritor?

Prof. Adriano – Isso é muito inconsciente. Vai se formando esse estilo, não se tem um controle muito grande sobre isso. Mas, se podemos procurar alguma coisa, eu diria que as leituras, a formação que a pessoa teve. Aquilo que se escreve é uma resposta àquilo que se leu, aquilo que se produz corresponde àquilo que se consumiu. Então eu creio que se eu puder mencionar algo, o meu estilo ao escrever poesia deva ser uma resposta aos poetas que eu li e que me impressionaram bastante.

Diocesano
– Quais foram?

Prof. Adriano – H. Dobal foi um poeta ímpar num determinado momento de verdadeira epifania. Manuel Bandeira, T. S. Elliot, Homero, esses são os que mais me impressionaram e são motivo de releituras constantes.

Diocesano – Você consegue entender T. S. Elliot?

Prof. Adriano – Interessante a pergunta, porque T. S. Elliot a cada leitura eu achava que tinha entendido. Quando você abre de novo, vê que aquela Terra Desolada não era bem aquela da leitura anterior. Então, eu digo assim, não. E isso é que é interessante nele, na verdade ele é um autor que pressupõe que cada leitura é diferente da leitura anterior. E também tem o T. S. Elliot teórico, as suas teorias a respeito da poesia também se mostram muito interessantes.

Diocesano – Quando foi que começou, segundo suas palavras, o seu irremediável vício pela poesia?

Prof. Adriano – Primeiro era o gosto, depois o vício. Quando comecei a escrever meus primeiros poemas, que coincide com as primeiras leituras de H. Dobal e corresponde ao  primeiro contato com T.S. Elliot, sobretudo com algumas traduções. Hoje eu imagino até que traduzir poemas é mais importante do que escrevê-los. Também quando refiz uma leitura do Manuel Bandeira. Eu lembro que a primeira vez que recebi meu salário como professor, imediatamente eu comprei a obra completa de Manuel Bandeira.

Diocesano – Qual a sua necessidade de escrever?

Prof. Adriano – Não sei. Sinceramente, eu me pergunto isso constantemente. Por quê? Eu poderia direcionar isso para o aprimoramento da carreira profissional, para o convívio familiar, para qualquer outra coisa, é algo inconsciente.

Diocesano – Nos seus poemas no livro Ave Eva você consegue ser muito preciso com as palavras. Poemas sucintos e que dizem muito. Essa precisão é um trabalho minucioso da escolha dessas palavras ou elas aparecem do nada?

Prof. Adriano – É minucioso, é um garimpo. Muitos deles são talvez a décima versão do primeiro poema, do que seria um esboço, é escrito e reescrito experimentando diversas variações para daí chegar ao que talvez seja o produto terminado. E muitas vezes não é. Algumas vezes, ao reler um poema vejo que determinada cadência rítmica, determinada imagem não fosse a mais adequada e por isso vejo meus livros e nenhum deles eu olho e digo tá terminado. Sempre vejo como um processo que num determinado momento precisei publicar, então foi publicado. Mas poderia ter continuado esse processo de reelaboração. Os primeiros livros eu vejo mais ainda como um esboço do que eles poderiam ter sido.

Diocesano – Vendo o expediente da Revista Amálgama, percebi que é um verdadeiro Clube do Bolinha. Lá, mulher não entra?

Prof. Adriano – Entra sim. Eu diria que foi apenas uma infelicidade nossa de não termos nenhuma colaboradora naquele momento, infelizmente. Hoje existe uma predominância grande de poetas mulheres que eu leio e releio constantemente, inclusive aqui do Piauí. Há um movimento bem forte de resgatar a produção feminina, é algo muito válido. Entre as poetas que eu admiro bastante tem a redescoberta de Cecília Meireles, no sentido de que eu estou lendo mais profundamente a poesia dela. Gosto muito da Hilda Hilst e da poesia russa, de Anna Akhmátova. Com relação a Amálgama, infelizmente naquela época nós não encontramos muitas interlocutoras, mas se tivéssemos encontrado seriam sempre muito bem vindas.

Diocesano – Como estão os projetos de incentivo a leitura dentro do Diocesano?

Prof. Adriano – Nós trabalhamos dentro de sala de aula nesse aspecto de tentar aproximar autores clássicos dos alunos, tentando fugir daquela padronização de vestibular onde o foco maior são os alunos do terceiro ano. Mas, até chegar ao terceiro ano, trabalhamos muito essa questão de tentar apresentar o texto clássico, canônico, sob o ponto de vista dialético onde o aluno possa entender-se como herdeiro dessa tradição literária que é uma experiência humana. O trabalho que utilizo diretamente em sala de aula, também, é de tentar ampliar essa leitura não apenas a autores brasileiros, mas entender-se como herdeiro de uma tradição que envolve as diversas culturas existentes do mundo. Vamos trabalhar durante esse ano os textos gregos como Homero, com a Ilíada, Odisséia. Vamos trabalhar As Mil e Uma Noites, um texto de linhagem árabe, e tentar aprimorar o repertório linguístico a partir da leitura literária.

Diocesano – Existe uma forma de encantar esses alunos com a literatura?

Prof. Adriano – É sempre um desafio porque a leitura é muito particular. Em linhas gerais, uma das maneiras utilizadas é, apesar de trabalharmos em algumas séries iniciais com obras adaptadas, que ele deve ter o contato com a obra original. Usamos esses elementos para chegarmos a certo nível de leitura. Apresentar uma Ilíada “original” a um aluno, seja em que tradução for, não dá. Ele precisa ter um repertório cultural anterior para conseguir mergulhar realmente no sabor dessa poesia. Então é contextualizar. Volta-se sempre para o paradigma inaciano, é necessário que o aluno tenha uma experiência em torno daquilo. Muitas vezes pode ser até por um fragmento onde ele possa despertar algum tipo de sensação, algum tipo de elemento que possa capturar a atenção do aluno, uma reflexão em torno daquilo. Eu diria que o paradigma inaciano aplicado à formação de leitores é algo ímpar, porque tem que haver uma experiência com essa leitura, um momento em que leve a experimentar, seja em forma de dramatização ou de releitura da obra. Os alunos elaborando seus próprios parâmetros em relação à obra, leva-os a se familiarizarem com o texto e com o contexto.

Diocesano – Como é a resposta dos alunos?

Prof. Adriano – Eu diria que é boa. Poderia ser melhor, mas formar leitores é complicado. E trabalhamos com um determinado público onde, graças a Deus, temos bons leitores. O nosso desafio é transformar aqueles que não são em pelo menos leitores minimamente assíduos. Esse ano, por exemplo, fiquei bastante grato. Uma aluna me disse que pela primeira vez havia lido um livro inteiro. Então, pra mim, foi bem comovente conseguir de alguém que não tinha o hábito, passar a ter o hábito da leitura. É um passo muito importante, porque ela leu A Revolução dos Bichos de George Orwell. E mais do que isso, admirou a obra. Então pra mim foi algo fundamental. Citei um exemplo, mas os pais também mencionaram que foi uma leitura agradável, que seus filhos gostaram bastante e sentiram o interesse deles por aquele objeto, livro, que quando se abre deixa de ser um objeto e passa a ser um organismo vivo.

Diocesano – Vamos falar agora da sua participação no Salipi. Como será a dinâmica da sua palestra?

Prof. Adriano – A partir do pressuposto que nós respondemos a coisas que tivemos contato, eu selecionei fragmentos de determinados autores da minha predileção enquanto teóricos, enquanto pessoas que desenvolveram aquilo que eu gostaria de estar mencionando naquele momento. Então peguei diversos fragmentos. Por exemplo, dois trechos de Jorge Luis Borges, um sobre o livro, outro ligado à tradição literária e vou comentar, a partir daí, a visão que ele tem sobre leitura, escrita, sobre ensino, assim como de outros oito autores. A dinâmica da palestra vai ser essa que o ensino de Literatura e a escrita estão sempre em construção. A tônica da palestra vai ser essa, o diálogo com esses teóricos e como as teorias deles podem ser operadas dentro da sala de aula, o que eles têm a nos oferecer.


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blog Goella entrevista Adriano Lobão Aragão

[por Chagas Botelho]
publicado
em 13 de março de 2010 no blog Goella - http://goellanet.blogspot.com.br/2010/03/papo-do-goella.html



Hoje, 14 de março, dia da Poesia, o papo do Goella faz uma entrevista com o poeta piauiense Adriano Lobão Aragão

Goella: Você diz que sua obra está em constante mutação. Para o poeta, é importante a busca de um novo foco para um novo trabalho?

Adriano Lobão: O trabalho com a criação artística, para ser relevante, costuma lidar com a ousadia de se reinventar constantemente.

Goella: Influências, intertextualidade e releitura são palavras marcantes em sua obra. Um bom poeta é antes de tudo um bom leitor?

Adriano Lobão: Creio que deveria ser. Não como imposição, afinal, na criação artística, ninguém é obrigado a nada. Mas creio que todo escritor sempre deve ler mais e escrever menos, buscando ser o principal crítico de si mesmo.

Goella: Fernando Pessoa diz que "o poeta é um fingidor". Você concorda com esse pensamento?

Adriano Lobão: Toda criação artística lida com algum tipo de “fingimento”. Entretanto, se é fingimento ou confissão, quem se importa? O valor de um poema está acima disso, pois se encontra na linguagem. Como escreveu Drummond, “o que pensas e sentes, isso ainda não é poesia”.

Goella: Você não acha que hoje os jovens lêem os poetas piauienses mais por cobranças nos vestibulares?

Adriano Lobão: Não só os poetas piauienses. Quase toda a poesia lida pelos jovens piauienses limita-se àquilo que o professor trabalha em sala de aula. O que é uma pena, o que é muito pouco para uma formação cultural relevante. Compreender um poema é compreender uma importante dimensão da própria expressividade da linguagem humana.

Goella: Pra você, os melhores poetas são brasileiros ou estrangeiros? Ou não se pode fazer esse tipo de comparação?

Adriano Lobão: Há bons poetas tanto no Brasil quanto no exterior. Entretanto, em relação aos poetas contemporâneos, a produção poética portuguesa requer uma maior atenção do leitor brasileiro.

Goella: Gostaria que você comentasse a literatura piauiense de hoje e como estão as produções feitas atualmente.

Adriano Lobão: Há alguns esforços bem positivos. Admiro a poesia de Sebastião Edson Macedo e Manoel Ricardo de Lima, os contos de Airton Sampaio e M. Moura Filho, os ensaios de Wanderson Lima e Ranieri Ribas, para citar alguns autores de publicação recente. Mas sempre há um longo caminho a seguir. Um grande incentivo para o desenvolvimento da literatura produzida no Piauí seria a existência de leitores mais exigentes, uma crítica literária mais atuante.

Goella: Gostaria que você fizesse um comentário acerca dos seus livros, "Uns Poemas", "Entrega a própria Lança na Rude Batalha em que morra" e "Yone de Safo". E também que comentasse as suas atividades de poeta, professor e editor da revista literária amálgama.

Adriano Lobão: “Uns Poemas” reúne o que escrevi entre 1997 e 1998, constituindo-se para mim o início de uma necessária busca pela maturação poética que ainda não sei se consegui. Como quase todas as obras de estréia, ali estão meus principais defeitos e a gênese do caminho que escolhi seguir. “Entrega a própria lança na rude batalha em que morra” acrescentou uma preocupação com uma simbologia a partir de uma perspectiva histórica e intertextual, bem como um trabalho formal mais apurado. Cada parte de “Yone de Safo” é uma espécie de fragmento de um livro distinto que preferi não desenvolver isoladamente. Daí temos uma primeira parte lírico-amorosa, um certo erotismo, e logo depois uma parte voltada para a metalinguagem com referências bíblicas. Há ainda uma seção com poemas voltados para o nordeste e outra pseudo-memorialista. Enfim, vejo “Yone de Safo” como um caleidoscópio de temas a formas. E é justamente esse caráter multifacetado que me agrada no livro. Tentar equilibrar concisão e dispersão é sempre um desafio interessante. Esse é meu trabalho como poeta. A revista Amálgama foi um esforço em aliar crítica e jornalismo literário. As dificuldades financeiras em manter a periodicidade da revista nos levou aos meios eletrônicos, no qual atualmente edito, juntamente com Wanderson Lima, a dEsEnrEdoS (http://www.desenredos.com.br/).

Goella: E pra encerrar, hoje, no dia da poesia, qual o livro que você indicaria para o leitor do Goella?

Adriano Lobão
: A “Ilíada”, de Homero, se quisermos “começar pelo começo”. Leitura indispensável. Admiro bastante a tradução de Carlos Alberto Nunes. A “Nova Reunião”, de Carlos Drummond de Andrade. 23 livro da poesia desse mestre reeditados recentemente em 3 volumes a um preço incrivelmente acessível. “O Tempo Consequente”, de H. Dobal; “Os Peãs”, de Gerardo Mello Mourão; “O Arado”, de Zila Mamede, enfim, minha lista de leituras fundamentais seria enorme. Não conseguiria indicar um livro apenas.

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